O desmatamento da Mata Atlântica atingiu em 2025 o menor patamar desde o início da série histórica iniciada há quatro décadas, consolidando uma trajetória de desaceleração observada nos últimos anos.

Dados divulgados nesta terça-feira pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mostram que a supressão de florestas maduras caiu 40% em relação ao período anterior, passando de 14.366 hectares para 8.668 hectares.

É a primeira vez, desde o início do monitoramento em 1985, que a devastação anual desse tipo de vegetação fica abaixo da marca de 10 mil hectares.

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Outro sistema de monitoramento do bioma, o SAD Mata Atlântica, desenvolvido pela SOS Mata Atlântica em parceria com o MapBiomas e a Arcplan, também apontou queda expressiva.

O levantamento identificou redução de 28% no desmatamento total do bioma, de 53.303 hectares para 38.385 hectares, o menor resultado desde a criação da ferramenta, em 2022.

Os dados reforçam um movimento de desaceleração da destruição em um dos biomas mais ameaçados do país, que hoje conserva apenas cerca de 24% de sua cobertura original.

Desse total, pouco mais da metade corresponde a florestas maduras, consideradas as áreas mais importantes para biodiversidade, estoque de carbono e segurança hídrica.

Fiscalização e pressão social explicam queda

Especialistas atribuem a redução à combinação entre fiscalização ambiental, pressão pública, restrições de crédito para áreas desmatadas ilegalmente e fortalecimento de mecanismos previstos na Lei da Mata Atlântica, que completa 20 anos em 2026.

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Entre as medidas apontadas como decisivas estão operações integradas de fiscalização, como a Mata Atlântica em Pé, além do uso crescente de sistemas de monitoramento via satélite capazes de identificar rapidamente áreas devastadas.

“O resultado mostra que políticas públicas funcionam quando há fiscalização e aplicação efetiva da lei”, afirmou Luís Fernando Guedes Pinto, diretor-executivo da SOS Mata Atlântica.

A queda ocorreu em 11 dos 17 estados abrangidos pelo bioma. Bahia e Piauí tiveram as maiores reduções proporcionais, embora ainda permaneçam entre os principais focos de devastação.

A Bahia liderou o ranking de perda florestal em 2025, com 17.635 hectares desmatados.

Em seguida aparecem Minas Gerais, com 10.228 hectares, Piauí, com 4.389 hectares, e Mato Grosso do Sul, com 1.962 hectares.

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Juntos, os quatro estados concentraram 89% de toda a área devastada registrada pelo sistema.

Segundo o levantamento, 96% das áreas desmatadas foram convertidas para uso agropecuário, grande parte com indícios de ilegalidade.

Mata Atlântica concentra população e atividade econômica

A Mata Atlântica abriga cerca de 70% da população brasileira e responde por mais de 80% do PIB nacional.

O bioma se estende por 17 estados e inclui grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba.

Além da importância econômica, especialistas destacam o papel estratégico da floresta para abastecimento de água, regulação climática e produtividade agrícola.

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A redução do desmatamento ocorre em um momento em que o Brasil tenta recuperar credibilidade ambiental internacionalmente e ampliar compromissos climáticos ligados ao Acordo de Paris.

Nos últimos anos, o país ampliou o uso de monitoramento por satélite em diferentes biomas, incluindo Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.

Relatórios recentes do MapBiomas e do sistema Prodes, do INPE, também vêm indicando desaceleração do desmatamento em outras regiões do país, embora os índices ainda permaneçam elevados.

Novas leis ambientais preocupam especialistas

Apesar dos resultados positivos, ambientalistas avaliam que mudanças aprovadas recentemente pelo Congresso podem comprometer a tendência de queda.

Em 2025, parlamentares aprovaram a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental e a chamada Lei da Licença Ambiental Especial, criticadas por organizações ambientais e por especialistas em política climática.

Um dos pontos mais controversos reduz a participação do Ibama na autorização para supressão de vegetação primária e secundária em estágio avançado de regeneração na Mata Atlântica.

Na prática, estados e municípios poderão conceder autorizações sem necessidade de anuência federal em determinados casos.

Para ambientalistas, o problema é que muitos municípios não possuem estrutura técnica adequada para avaliar corretamente o estágio de regeneração da floresta e os impactos ambientais envolvidos.

“Os dados mostram que o desmatamento cai quando há critérios técnicos e rigor na aplicação da lei. Flexibilizar os mecanismos agora representa um risco importante”, afirmou Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica.

A discussão ocorre em meio ao embate entre setores do agronegócio, que defendem simplificação do licenciamento ambiental, e organizações socioambientais, que alertam para o risco de aumento da devastação e agravamento de eventos climáticos extremos.

Monitoramento mais rápido amplia capacidade de reação

Criado em 2022, o SAD Mata Atlântica passou a detectar desmatamentos em áreas a partir de 0,3 hectare, permitindo alertas mais rápidos para órgãos ambientais.

Já o Atlas da Mata Atlântica, desenvolvido em parceria com o INPE desde 1985, acompanha fragmentos maiores, acima de três hectares, oferecendo uma visão de longo prazo sobre a evolução das florestas maduras.

Pesquisadores afirmam que a combinação dos dois sistemas melhora a capacidade de reação do poder público e permite identificar rapidamente novas frentes de devastação.

“O monitoramento contínuo é o que permite entender se estamos diante de uma mudança estrutural ou apenas de uma oscilação temporária”, afirmou Silvana Amaral, coordenadora técnica do Atlas pelo INPE.

Embora o cenário atual seja considerado o mais positivo já registrado para o bioma, especialistas afirmam que o desafio agora será manter a tendência de queda em um ambiente político marcado por pressões para flexibilização das regras ambientais.



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