A moda brasileira é alvo de comentários sobre suposta falta de originalidade, mas críticos pecam ao não reconhecer avanços, se firmando somente em desqualificações que beiram a alienação. O debate sobre originalidade na moda está longe de ser novo, contudo, ganhou novos contornos após um artigo de opinião descredibilizar criações apresentadas no Rio Fashion Week. O texto, de autoria da jornalista Renata Brosina para a Folha de S. Paulo, aponta semelhanças entre os designs de marcas locais, como Misci e Isabela Capeto, aos de autoria de grifes internacionais como a Chanel.
Vem entender!
Entre análise e desvalorização
“Ainda é possível transformar repertório em novidade. Algumas sabem fazer; outras preferem abstrair do próprio mundo em busca do look, mesmo que ele seja da Chanel”, afirmou Renata. Contudo, a crítica perde força quando abandona a análise e vira desqualificação.
No caso, o problema não é existir crítica, mas o tom e a ausência de equilíbrio entre apontar fragilidades e reconhecer avanços reais da moda brasileira.
O texto falha ao não reconhecer que, no Brasil, muitas marcas acabam olhando para fora porque o sistema ainda recompensa mais o que vem validado de centros internacionais. Já o que é produzido aqui, passa despercebido por público e imprensa.
Antes de concluir que a moda brasileira “morre na praia”, seria necessário perguntar por que isso acontece: por falta de incentivo, por herança colonial de consumo, por fragilidade industrial, ou por uma cultura que ainda valoriza mais o estrangeiro do que a própria imagem. Se hoje parece que o Brasil “olha para fora”, será que isso acontece porque o que era nosso já foi apropriado ou esvaziado por outros centros de moda?
Airon Martin rebate críticas
Nesse sentido, a resposta de Airon Martin, criador da Misci, chama a atenção justamente para o que o artigo original deixou de lado: os processos artesanais, os repertórios locais e os profissionais brasileiros que desenvolvem técnicas há décadas, muitas vezes antes de serem legitimadas internacionalmente.
“Reduzir esse processo autoral e brasileiro a uma suposta inspiração recente internacional é apagar décadas de trabalho manual, pesquisa material e conhecimento local”, detalha Airon em resposta à Folha de S. Paulo.



















