
Especialistas em saúde, clima e desempenho esportivo vêm pressionando a FIFA a atualizar seus protocolos de segurança térmica antes da Copa do Mundo masculina de 2026. Em carta aberta enviada à entidade, pesquisadores afirmam que as regras atuais são insuficientes para proteger os jogadores diante das temperaturas previstas para o torneio, que será disputado em 16 cidades dos Estados Unidos, México e Canadá.
O documento reúne nomes de referência nas áreas de fisiologia, medicina esportiva e mudanças climáticas, incluindo pesquisadores do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Noruega, Japão, França, Espanha e Austrália. Segundo os especialistas, os níveis atualmente considerados aceitáveis pela FIFA “são impossíveis de justificar”, mesmo para atletas acostumados a competir em ambientes quentes. A principal preocupação está nos jogos disputados à tarde, quando o calor tende a atingir níveis mais perigosos.
“O exercício competitivo em ambientes quentes pode levar desde queda de desempenho até emergência médica por golpe de calor”, afirma Mike Tipton, professor de Fisiologia Humana e Aplicada no Laboratório de Ambientes Extremos da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido. “Alguns locais da Copa de 2026 provavelmente ultrapassarão o limite recomendado de ‘alto risco’ relacionado ao calor, especialmente em jogos vespertinos.”
O principal ponto de discussão é o índice Wet Bulb Globe Temperature (WBGT), usado para medir o impacto do calor no corpo humano. Diferentemente da sensação térmica, ele leva em conta fatores como umidade, vento, radiação solar e temperatura do ar. Pelas regras atuais da FIFA, partidas podem seguir normalmente mesmo com WBGT de até 32°C, com apenas pausas rápidas para hidratação.
Para os especialistas, porém, o limite está muito acima do considerado seguro. “A ciência mostra que esportes de alta intensidade acima de um WBGT de 28°C já podem colocar o jogador em risco”, explica Douglas Casa, especialista em segurança esportiva e doenças relacionadas ao calor.
Pausas para resfriamento
Outro ponto criticado na carta são as pausas de resfriamento previstas para os jogos. A FIFA determinou interrupções de três minutos em cada tempo durante a Copa de 2026, independentemente da temperatura. Mas, na avaliação dos pesquisadores, esse intervalo é curto demais para promover reidratação e redução efetiva da temperatura corporal.
A recomendação é ampliar as pausas para pelo menos seis minutos e investir em tecnologias de resfriamento nos vestiários. O grupo também pede que a FIFA adote protocolos alinhados aos defendidos pela FIFPRO — sindicato mundial dos jogadores de futebol profissionais —, que sugerem pausas quando o WBGT ultrapassar 26°C e adiamento ou suspensão das partidas acima de 28°C.
Edição mais poluente e conflito de interesses
As preocupações vão além dos jogadores. O impacto do calor sobre torcedores, trabalhadores e equipes de apoio também vem sendo discutido, já que o torneio, conforme apontam os especialistas, ocorre em meio ao agravamento das mudanças climáticas.
A Copa de 2026 também vem sendo apontada como a edição mais poluente da história do torneio. A ampliação para 48 seleções e a realização de partidas em três países e 16 cidades devem aumentar significativamente as emissões de carbono, principalmente pelo crescimento das viagens aéreas.
“As mudanças climáticas ameaçam a saúde e a sobrevivência humanas agora”, declarou Hugh Montgomery, diretor do Centro de Saúde e Desempenho Humano da University College London.
A carta também critica a relação comercial da FIFA com a Aramco, patrocinadora do torneio e maior produtora de petróleo do mundo. Segundo os pesquisadores, a parceria representa um “conflito de interesse” diante dos impactos das mudanças climáticas sobre a saúde dos atletas.