Desde que modelos de linguagem como o ChatGPT se tornaram acessíveis ao público, em 2022, a grande pergunta que mobilizou milhões de trabalhadores no mundo inteiro passou a ser: meu emprego vai acabar? Três anos depois, a resposta começa a se revelar mais complexa do que qualquer alarmista poderia supor.
Uma das interessadas no tema — por ser a maior desenvolvedora de inteligência artificial (IA) do mundo —, a OpenAI divulgou recentemente o relatório AI Jobs Transition Framework (modelo de transição dos empregos na era da IA, em tradução livre), no qual se posiciona como observadora e orientadora dessa transição.
Assinado pelo economista-chefe da empresa, Ronnie Chatterji, o estudo propõe uma nova forma de medir o impacto da IA no mercado de trabalho. Para isso, os pesquisadores aplicaram o modelo a 900 ocupações catalogadas, que somam 150 milhões de empregos nos Estados Unidos.
O relatório critica a abordagem dominante até agora que, para avaliar o risco que a IA representa para os empregos, se limitava a medir a “exposição” das profissões à tecnologia. Os estudos anteriores perguntavam: quais tarefas desse emprego a IA consegue executar? Se a resposta fosse “muitas”, o emprego entrava na lista de ameaçados.
Não significa que os estudos anteriores estavam errados, mas sim que respondiam apenas parte da pergunta, ou seja, mediam o que a IA pode fazer. Já o novo relatório propõe medir o que a IA vai efetivamente fazer com cada emprego, considerando regulação, preferências humanas, dinâmica de mercado e adoção real.
Qual é a nova abordagem proposta pelo relatório da OpenAI?

O modelo proposto pelos criadores do ChatGPT combina três fatores: o que a IA tecnicamente consegue fazer, se a função exige presença humana obrigatória e se serviços mais baratos gerariam mais demanda — não menos empregos. O resultado classifica cada profissão em quatro categorias de risco.
Ao estimar qual tipo de pressão cada emprego deve enfrentar primeiro, a distribuição contrariou o senso comum: 46% dos cargos estão, por enquanto, fora da zona de pressão imediata de automação. Apenas 18% enfrentam risco elevado de substituição tecnológica no curto prazo. Para os 36% restantes, a IA significa transformação, e não eliminação de postos de trabalho.
O relatório explica que ser muito exposto à IA não significa ser substituído logo. Mesmo quando a tecnologia consegue, tecnicamente, executar tarefas de uma profissão, três tipos de barreira do mundo real impedem a substituição: a legal, o vínculo humano ou a presença física.
Advogados, por exemplo, têm metade do seu trabalho automatizável, mas só humanos podem responder pelos resultados. O vínculo humano é imprescindível em profissões, como professores e psicólogos. Outras — como enfermeiros, eletricistas, fisioterapeutas — exigem presença corporal no mundo real.
O que o trabalhador brasileiro precisa saber agora

O cenário descrito pela OpenAI já começa a aparecer no mercado de trabalho brasileiro. Um levantamento recente da Infojobs, uma das maiores plataformas de empregos do país, registrou crescimento de 65% nas vagas que exigem conhecimento em IA ao longo de 2025, superando duas mil oportunidades abertas no período.
O panorama nacional confirma uma das principais conclusões do novo relatório: o impacto da IA tende a ocorrer primeiro na reorganização das tarefas — e não necessariamente no desaparecimento imediato das profissões. Em muitas empresas, trabalhadores estão dividindo atividades com sistemas automatizados e assumindo funções mais estratégicas e criativas.
Isso significa que o principal risco talvez não seja “ser substituído por uma IA”, mas permanecer fora das mudanças em curso. Atividades repetitivas, burocráticas e previsíveis tendem a ser cada vez mais automatizadas, enquanto competências humanas difíceis de replicar se valorizam — como análise crítica, empatia, coordenação e capacidade de decisão.
O relatório da OpenAI indica que ocupações mais expostas à automação — como entrada de dados e rotinas administrativas — merecem políticas de requalificação que facilitem a transição para funções em que a presença humana, o julgamento e a interação social continuam sendo centrais.
Ao final, a própria análise reconhece suas limitações: exposição técnica ainda não explica mudanças concretas no emprego e projeções de longo prazo ainda escapam ao modelo. A conclusão pede uma transição centrada nas pessoas — uma diretriz legítima, mas também paradoxal, por partir da mesma empresa que fabrica a tecnologia.