Belo Horizonte – O Anel Rodoviário, na altura do bairro Betânia, na região Oeste de Belo Horizonte, voltou a ser palco de tragédia essa semana: 13 veículos se envolveram em um grave engavetamento na tarde dessa terça-feira (12/5).

Só nos quatro primeiros meses de 2026, a via, que liga a cidade à rodovias importantes como as BRs 040, 262 e 381, registrou 1.125 acidentes, uma uma média de aproximadamente 9,4 acidentes por dia, segundo dados do Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais, da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) levantados pelo Metrópoles. Apesar do alto número, a Prefeitura diz que há uma redução.

O número representa cerca de 25,4% de todos os 4.427 acidentes contabilizados na via ao longo de todo o ano de 2025. De janeiro a abril, já somam 178 vítimas apenas nos quatro primeiros meses de 2026. Segundo dados da Sejusp, seis pessoas morreram. No ano passado de janeiro a dezembro, foram 25.

No mesmo período, o Anel Rodoviário foi o local com mais teve de acidentes na capital mineira, à frente de avenidas movimentadas como Cristiano Machado, Contorno e Presidente Antônio Carlos. Em média, a rodovia teve cerca de 369 ocorrências por mês em 2025, com pico em outubro, quando foram registrados 421 acidentes. Segundo a Prefeitura, cerca de 120 mil veículos circulam diariamente pelo Anel.

Por que?

Para o consultor em transporte e trânsito Silvestre de Andrade, são as características de avenida e rodovia do Anel que aumentam o risco para quem trafega pela via.

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“A condução numa rodovia de um veículo é bem diferente na área urbana. Na rodovia, você privilegia uma velocidade maior e menos interferências lindeiras [entradas e saídas de ruas; pontos de ônibus; comércios; carros estacionando, e etc.] Enquanto que, na área urbana, você anda numa velocidade menor, com muitas interferências urbanas, travessias de pedestre, semáforos, áreas de embarque e desembarque de ônibus e gente estacionando”, explica o consultor em transporte e trânsito Silvestre de Andrade.

Não é novidade que um dos pontos mais críticos é o Trevo do Betânia, onde ocorreu o acidente desta terça-feira (12/5). Isso porque, segundo o especialista, o trecho tem uma longa descida entre a saída para a BR-040 e o trevo, o que pode sobrecarregar o sistema de freios de caminhões pesados.

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“O freio tá lá, ele tá é mal utilizado ou em más condições. Acabam acontecendo acidentes porque o trecho é muito longo, e esse uso constante dos freios provoca um desgaste grande”, explicou o especialista.

Não por acaso, um dos tipos mais comuns de acidentes no local são os engavetamentos, consequência do grande fluxo de veículos combinada entre as altas velocidades e a topografia desfavorável.

“Qualquer movimento irregular vai atingir vários outros veículos. Se as velocidades fossem mais baixas, provavelmente o engavetamento não aconteceria. Mas as velocidades são altas, e isso provoca essa reação em cadeia, em que um bate no outro sucessivamente”, conclui Andrade.

Mudanças importantes

A gestão da via também passou por mudanças importantes. De acordo com o especialista, a transferência do trecho de 22,4 quilômetros do Novo Anel, entre o Bairro Olhos D’Água e a Avenida Cristiano Machado, para a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), após um período de inação do governo federal, trouxe melhorias imediatas na sinalização, no pavimento e na recuperação de estruturas de segurança.

“Só essa ação já começa a representar um aspecto mais positivo com relação à segurança. E isso precisa ter continuidade, precisa aprofundar e avançar mais para que isso não se reverta e continue havendo ganhos. É um primeiro passo importante porque já mostra, nos próprios índices, que o tratamento da via traz resultados expressivos”, ressalta.

Carreta acessa área de escape no anel rodoviário de BH
Carreta acessa área de escape no anel rodoviário de BH

A área de escape do Anel — que funciona mais ou menos como as construídas em autódromos de corrida — foi inaugurada em 2 de agosto de 2022 pela PBH. Na última sexta-feira (8/5), ela ajudou uma carreta bitrem carregada e sem freios a parar sem provocar acidentes. Desde a inauguração, foi utilizado 20 vezes, segundo a própria PBH.

Jacqueline Alves, formada em Gestão de Trânsito e instrutora teórica e prática no processo de formação de condutores, afirmou que a área de escape é uma solução “final” quando se fala em prevenção de sinistros de trânsito — usada quando todos os recursos para evitar o acidente já falharam.

“Existem várias áreas críticas com maior ocorrência de sinistros onde poderiam ser implantadas essas estruturas, como nos trechos dos bairros Madre Gertrudes (região Oeste), São Francisco (Pampulha), e Olhos d’Água (região Oeste)”, disse Jacqueline.

Rodoanel e nova área de escape

O acidente  reacendeu cobranças de políticos mineiros por intervenções. Para o especialista, a solução definitiva é, de fato, passa pela separação total dos fluxos através da construção do Rodoanel Metropolitano.

“Precisa-se de um novo anel para separar o tráfego urbano do tráfego rodoviário. Claro que a área de escape ajudou, já tem uma estatística expressiva de veículos utilizando essa área. Ela reduziu efetivamente acidentes graves e certamente mortes”, pondera o entrevistado, lembrando que a área de escape dissipa a energia dos veículos sem causar colisões na pista principal.

Segundo Jacqueline, o alargamento das pistas pode, sim, contribuir para “desafogar o trânsito”, reduzindo as batidas. No entanto, ela ressalta que, “se o comportamento dos condutores não mudar, principalmente em relação à manutenção dos veículos e à postura defensiva ao volante, ainda teremos sinistros graves como os vistos atualmente”.

Rodoanel travado

O projeto, no entanto, enfrenta questionamentos judiciais e ambientais desde o processo de licenciamento. De acordo com a Secretaria de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias, o início das obras do Rodoanel pode ocorrer no segundo semestre deste ano caso o governo estadual consiga reverter a decisão judicial que travou o licenciamento ambiental do projeto.

A previsão das obras foi interrompida após pedido de comunidades quilombolas de Contagem (Grande BH), situadas próximas ao traçado. Uma liminar concedida pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6) acatou a reivindicação, no fim do ano passado. O argumento é de que as comunidades afetadas não foram ouvidas pelo governo estadual no processo de elaboração do projeto.

Hoje, a curto prazo, segundo Jacqueline, “a fiscalização ostensiva e ações educativas constantes podem ser utilizadas para a redução dos sinistros”.

O que diz a PBH

Desde que assumiu a gestão do Novo Anel, em junho de 2025, a PBH  afirma ter registrado redução significativa no número de acidentes na via.

Dados da BHTrans mostram que, entre janeiro e março de 2026, foram contabilizados 113 acidentes com vítimas, contra 180 no mesmo período do ano anterior — uma queda de aproximadamente 37%. O destaque foi o mês de março, quando as ocorrências passaram de 58 para 14, redução de 76%.

Segundo a prefeitura, “entre as principais medidas adotadas estão o monitoramento constante por equipes operacionais e câmeras ao longo da via, a disponibilização de reboques para remoção rápida de veículos, a padronização dos limites de velocidade, o reforço da sinalização e a implantação de novos equipamentos de fiscalização eletrônica”.

Em fevereiro deste ano, começaram a operar 22 pontos de controle eletrônico de velocidade, monitorando 62 faixas. Além disso, 427 agentes da BHTRANS e da Guarda Civil Municipal foram capacitados para atuar de forma integrada no monitoramento.

A Prefeitura  também prepara a substituição de três passarelas no Anel Rodoviário, nos bairros Madre Gertrudes, Bernadete e no Trevo São Francisco. As novas estruturas terão padrões modernos de acessibilidade e segurança, com investimento previsto de até R$ 12,9 milhões.



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