A reitoria da USP (Universidade de São Paulo) divulgou, nesta quarta-feira (13), a instauração da Comissão de Moderação e Diálogo Institucional, com o objetivo de dialogar com a comunidade estudantil.
A decisão ocorre após um mês de greve que se intensificou com a adesão de outras universidades, como Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Unesp (Universidade Estadual Paulista). No último domingo (10), a Polícia Militar de São Paulo usou bombas e ‘corredor polonês’ para retirar estudantes que ocupavam o prédio da reitoria da USP, numa escalada de tensão da greve.
Segundo a reitoria, não há data para o início das discussões, mas “profissionais com experiência em mediação e resolução de conflitos apoiarão a interlocução”.
Além disso, a administração se comprometeu com diálogo construtivo a fim de avançar nas solicitações exigidas pelos cursos da Universidade.
“A Universidade reafirma que o processo exige compromisso mútuo, diálogo construtivo e reconhecimento dos limites institucionais, administrativos e orçamentários que envolvem determinadas demandas”, finaliza a nota.
A CNN Brasil entrou em contato com o DCE (Diretório Central dos Estudantes) e outros movimentos ligados à USP, mas não obteve retorno até o momento. O espaço segue aberto.
Relembre a desocupação da reitoria
Na quinta-feira (7), alunos da USP ocuparam a reitoria da Universidade, localizada no campus do Butantã, na zona Oeste de São Paulo.
Durante o fim de semana, os estudantes realizaram assembleias e manifestações que têm como objetivo reivindicar melhores condições na permanência estudantil, como no restaurante universitário, onde houve uma série de denúncias de bichos misturados na comida, aumento das bolsas de auxílio para alunos de baixa renda, além da revisão de programas de pós graduação.
A Polícia Militar, no entanto, iniciou um processo de desocupação do prédio na madrugada de domingo (11). Segundo estudantes que estavam no local, houve violência na abordagem policial, que utilizou bombas de efeito moral e gás lacrimogênio, além de spray de pimenta e cassetetes para retirar os jovens da reitoria.
Veja os vídeos abaixo:
A reitoria ainda publicou uma nota sobre a ação de domingo, informando que havia solicitado protocolos de proteção do patrimônio à SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo), mas que não foi informada sobre a desocupação realizada pela Tropa de Choque no domingo.
A USP também repudiou qualquer violência que atrapalhe o diálogo e “a convivência democrática como forma de avanço de pautas”.
Em nota enviada ainda no domingo, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) disse que realizou uma vistoria do local e que as “eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas”.
Início da greve
Há exatamente um mês, a mobilização, liderada pelo DCE da USP, começou em apoio aos servidores que se manifestavam contra uma gratificação anunciada pela reitoria apenas para professores.
Cerca de 150 alunos se revezaram em diferentes turnos durante a greve, com divisão de tarefas, agenda cultural e limpeza do espaço. A reitoria, no entanto, descartou novas rodadas de negociação.
Após pressão, os servidores conseguiram avanços salariais e encerraram a paralisação. Por outro lado, os estudantes decidiram manter a grave em favor às próprias reinvindicações.
A principal demanda é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), que atualmente oferece benefícios entre R$ 335 para estudantes residentes em moradia estudantil e R$ 885 para auxílio integral.
A USP propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE. Dessa forma, o auxílio integral passaria para R$ 912 mensais, enquanto o auxílio parcial para estudantes com moradia subiria para R$ 340. A proposta, no entanto, é considerada insuficiente pelos estudantes, que defendem um reajuste para R$ 1.804, valor equivalente ao salário mínimo paulista. A administração da Universidade resistiu às propostas dos grevistas.
Entre outros pontos, os estudantes criticam questões estruturais da universidade, como a gestão do restaurante universitário, conhecido como “bandejão”, a moradia estudantil e a situação do Hospital Universitário (HU), que, segundo manifestantes, perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década.
Veja nota da USP na íntegra:
“Tendo como princípio que o diálogo e a convivência pacífica são condições essenciais para a vida universitária, a Reitoria instituiu a Comissão de Moderação e Diálogo Institucional, com o objetivo de promover a abertura de um novo ciclo de interlocução com a representação estudantil.
Nesta nova etapa, profissionais com experiência em mediação e resolução de conflitos apoiarão a interlocução entre a representação discente e membros da gestão universitária na construção de novos caminhos de entendimento e na busca de soluções para os pontos apresentados pelos estudantes.
A primeira reunião da Comissão será agendada com a brevidade necessária para dar encaminhamento aos pontos de pauta já apresentados, com vistas a poder avançar em sua implementação.
A Universidade reafirma que o processo exige compromisso mútuo, diálogo construtivo e reconhecimento dos limites institucionais, administrativos e orçamentários que envolvem determinadas demandas.”
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo