
Sempre que algum político diz que o “modelo escandinavo” é o sistema que mais gostaria de ter como inspiração, desconfiamos que está desconversando. O modelo dos países nórdicos é inimitável, por motivos sociais e culturais, mas efetivamente é o que mais se aproxima do desejável: necessidades básicas bem atendidas pelo Estado, baixas disparidades de renda e funcionamento saudável do setor privado. Ou seja, um pouco das ideias de esquerda e um pouco das de direita. Uma reportagem do Wall Street Journal esquadrinhou esta semana como a Suécia voltou a ser um exemplo positivo dessa mistura ao “abraçar o capitalismo”, depois de seguir durante décadas o caminho dos impostos altos para cobrir um Estado-pai que assumia todos os serviços – educação, saúde pública e todos os outros gastos do clássico “do berço ao túmulo”.
As provas citadas pelo jornal para americano sobre o reajuste vivido pelo país de onze milhões de habitantes e PIB per capita de 70 mil dólares realmente impressionam. Metade dos hospitais de atendimento básico hoje são privatizados, da mesma forma que uma de cada três escolas de ensino médio. O gasto em benefícios sociais caiu para 23,7% do PIB, equivalente ao 13º lugar entre as economias avançadas (a campeã em gastança é a França, com 31,6%; no Brasil, é de 15,6%).
Os impostos não ficaram nada mais amigáveis, com o país em quinto lugar entre os europeus, com alíquotas chegando a 52% (a campeã é a vizinha Dinamarca, com 60,5%).
A história de “abraçar o capitalismo” tem um certo exagero. A Suécia exibe um histórico de empresas bem sucedidas em termos globais, incluindo marcas como IKEA, H&M, Volvo, Spotify, Ericsson e o estúdio que bolou o Minecraft.
APELO DO TRIBALISMO
É possível assim a cidadãos de muitos países se vestir, mobiliar a casa, ouvir música , jogar videogame e andar de carro só com marcas suecas. Produtos baratos e com excelente design como os móveis da IKEA praticamente encarnam o ideal do modelo sueco de igualitarismo: coisas boas para todos (ao contrário do socialismo, que só fazia coisas ruins para a massa e do capitalismo puro e duro, onde o acesso à qualidade sai mais caro).
O modelo sueco também já viveu fases em que expulsava milionários e a realidade não mudou radicalmente. Exibir riqueza ainda não é uma atitude socialmente incentivada. O país também importou problemas como a imigração feita em nome dos mais nobres motivos, como receber refugiados de guerra, mas que redundou em bolsões de criminalidade e domínio de gangues, especialmente associadas a imigrantes albaneses. A população originária de países muçulmanos também trouxe com ela conflitos inconcebíveis para a mentalidade escandinava. Ainda está em aberto qual força vai prevalecer: a integração a um dos países mais liberais do mundo ou as pulsões do tribalismo religioso.
Muito do destino da Suécia será decidido nesse embate, com problemas novos para um país onde os problemas antigos pareciam resolvidos da forma mais desejável – ou possível, dentro do espectro das realizações humanas.
A Suécia tem um governo de centro-direita que faz mudanças sutis, coerentes com o nome do partido que o chefia, o Moderado; uma monarquia sem escândalos; um primeiro-ministro que poucos conhecem o nome fora de suas fronteiras (Ulf Kristersson); um sistema político suficientemente confiante para não ter feito o lockdown durante a pandemia e, agora, segundo a definição do Journal, um renascimento capitalista. É difícil não ficar com invejinha do bem.