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Marcela foi à sua sessão com a psiquiatra como de costume. Educada e afetuosa, apesar do significativo valor cobrado pela consulta de 45 minutos, começou parabenizando a médica pelo nascimento da neta. Não esperava que esse gesto de simpatia fosse virar o fio da conversa: em poucos minutos, a psiquiatra devolveu o assunto com uma pergunta direta: “E você, quando vai ter filhos?”
A partir daí, dedicou mais da metade da sessão a falar sobre maternidade, fertilidade e o suposto risco de “esperar demais”. Marcela, com 26 anos, solteira e ainda tateando seu lugar no mundo profissional, não sabia o que responder. Saiu da consulta confusa, triste e um tanto traída.
Porque, se até dentro do espaço supostamente seguro e neutro de um consultório psiquiátrico sua hesitação foi tratada como falha, o que esperar do mundo lá fora?
Camila sempre quis ser mãe. Queria tanto que virou quase um projeto de tempo integral: consultas, hormônios, FIVs sucessivas. Em poucos anos, acumulou dívidas, quilos e uma ansiedade que não dava trégua — mas o tão sonhado filho não vinha. Adotar? Talvez, mas não era isso que ela havia imaginado. Camila não desistiu exatamente. Apenas seguiu em frente.
Daniela, por outro lado, nunca teve esse desejo. Nunca mesmo. Chegou a congelar óvulos, mais por medo do arrependimento futuro do que por vontade presente. Mas filhos não cabiam no seu estilo de vida — nem na sua ideia de liberdade. Às vezes se perguntava se havia algo de errado com ela. Às vezes, não. Letícia sempre achou que teria filhos “em algum momento”.
Mas os anos passaram, a carreira deslanchou, os amores foram se alternando, e o tal momento nunca chegou. Hoje, aos 46, vive entre a leveza de não ter filhos e a pontada de dúvida que às vezes a acorda no meio da noite. Já Patrícia teve dois filhos.
Quis, amou, cuidou — mas se surpreende com a quantidade de dias em que fantasia como teria sido sua vida sem eles. E sente vergonha de pensar assim. E tem também o caso da Joana, que dizia que não queria filhos, mas acabou engravidando aos 38. Hoje, entre fraldas e reuniões no Zoom, ainda se pergunta se essa foi mesmo uma escolha — ou se foi apenas o caminho que lhe restou.
Por muito tempo — e nem é preciso voltar tanto assim — a dúvida de uma mulher sobre ter filhos era vista como um tipo de anomalia. Um desvio emocional, uma falha moral ou, na melhor das hipóteses, uma fase passageira de egoísmo.
“Você vai mudar de ideia”, diziam. Ou, com um certo ar clínico: “Você está com medo. Vai ver, é um trauma”. Ainda hoje, num mundo onde mulheres já ocupam cadeiras no Supremo, pilotam foguetes e vencem prêmios Nobel, hesitar diante da maternidade continua a ser, para muitos, sinal de que há algo de errado.
A simples possibilidade de que uma mulher não deseje filhos — ou que esteja sinceramente em dúvida — aciona um desconforto coletivo. Como se, ao não se apressar rumo ao suposto destino natural, ela estivesse sabotando não só o próprio script, mas também o das outras.
Ser mãe ou não ser: eis a questão?
A ambivalência materna, ainda um tema cercado de tabus, tem sido explorada por muitos livros e filmes — embora, em boa parte deles, esse conflito apareça tingido por tons trágicos ou extremos. Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lionel Shriver, é talvez um dos exemplos mais incisivos: a protagonista, visivelmente hesitante quanto à maternidade, tem um filho que se torna um assassino em massa. O romance sugere, ainda que de forma ambígua, que a dificuldade dela em se vincular ao filho poderia ter desempenhado algum papel em sua trajetória sombria.
Em A Filha Perdida, de Elena Ferrante, o drama é mais interno: uma professora universitária que abandona suas filhas pequenas por alguns anos para perseguir sua vida intelectual, confessa ter adorado essa pausa e, décadas depois, se vê assombrada pela culpa, pelo desejo e pela ausência.
Já em As Horas, a incapacidade de uma mãe em se encaixar no papel esperado — e sua escolha por deixar a família — é tratada como um fio que, anos depois, levaria ao suicídio do personagem de Ed Harris. São obras marcantes, mas que, com frequência, colam na figura da mulher que questiona a maternidade uma carga de tragédia, como se o desejo de não ser mãe (nos casos acima de filhos que nasceram) fosse um prenúncio de caos.
Há também retratos mais matizados — e até libertadores — de mulheres que questionam ou recusam a maternidade. No ensaio Regretting Motherhood, da socióloga israelense Orna Donath, mulheres que se tornaram mães compartilham com honestidade o arrependimento por essa escolha — não por falha de caráter, mas por um sistema que nunca permitiu que a não-maternidade fosse uma opção legítima. A obra traz a discussão que mulheres que tiveram filhos podem se arrepender também.
Enquanto isso, a brasileira Larissa Cruvinel, em A Serenidade da Renúncia, narra sua jornada pessoal de reflexão sobre a maternidade. Após congelar óvulos aos 32 anos, ela compartilha, de forma honesta e profunda, a decisão tomada aos 35 anos de não seguir a pressão social para ter filhos, oferecendo um caminho de autodescoberta para mulheres que buscam viver de acordo com seus próprios valores e escolhas.
É claro que a maternidade pode ser linda, transformadora e épica. Mas também pode ser exaustiva, solitária, ambígua. Não há instinto que prepare alguém para noites sem dormir, para o esvaziamento de identidade que pode acompanhar o “ser só mãe”, ou para o pavor de errar na formação de um ser humano.
Um estudo brasileiro encontrou dados de depressão pós-parto na casa dos 26% – e isso inclui mulheres que queriam muito ser mães. O desejo, portanto, não imuniza ninguém da dureza da experiência.
É por isso que a possibilidade de escolher é tão crucial. E não estamos falando de uma escolha abstrata, mas de uma decisão real, informada, sem culpa. O direito de não saber ainda. O direito de mudar de ideia. O direito de não querer — e de não precisar justificar.
Não só por isso, mas também porque, mesmo quando são queridos, mesmo quando os pais são suficientemente bons, o filho pode não seguir o caminho esperado. Imagine, então, quando a estrutura de suporte e amor não é tão sólida.
Sonho e realidade
A maternidade não é uma garantia de felicidade ou sucesso, e a possibilidade de errar, de se frustrar e de viver (e dos outros viverem também), com as consequências de uma decisão tão definitiva, precisa ser reconhecida e respeitada.
Nos últimos 30 anos, graças ao feminismo, aos métodos contraceptivos eficazes e à visibilidade crescente de vozes fora do padrão, essa conversa vem mudando. Aos poucos, o discurso da maternidade como destino dá lugar à ideia de maternidade como opção.
Nos Estados Unidos, dados recentes do Pew Research Center indicam que cerca de 47% dos adultos entre 18 e 49 anos sem filhos dizem não ter intenção de tê-los. No Brasil, a taxa de fecundidade despencou de mais de 6 filhos por mulher nos anos 1960 para 1,6 hoje.
O desejo de cuidar não precisa, necessariamente, se traduzir em filhos. Há muitas formas legítimas de expressar afeto — de maternar no sentido mais amplo do termo. Cuidar de sobrinhos, afilhados, alunos, amigos, familiares, pessoas vulneráveis; oferecer presença, proteção, continuidade.
Essa transformação cultural, no entanto, ainda não foi totalmente metabolizada. Mulheres sem filhos — por escolha ou por circunstância — continuam sendo tratadas (ou se consideram) como esboços incompletos. A maternidade ainda é usada como prova de maturidade, altruísmo, empatia ou “realização plena” e a ausência dela, como sinal implícito do contrário: egoísmo, imaturidade, incompletude ou falta de propósito.
Algumas são aconselhadas a “ter um filho para não envelhecer sozinha”. Mas filhos não são uma espécie de plano de previdência emocional.
Aliás, uma das críticas feitas às mulheres que não querem ter filhos é: “Mas e quem vai sustentar sua aposentadoria?”. Como se crianças fossem pequenos agentes do INSS, preparados para garantir o equilíbrio atuarial do futuro.
O curioso é que raramente se pergunta o contrário: e o custo ambiental de trazer mais gente para um planeta já tão explorado? Afinal, cada novo ser humano também vem com uma pegada de carbono, uma conta de água e uma assinatura do Netflix.
Se é para falar de futuro, que tal incluir também o das árvores? Claro, esse tipo de conversa às vezes se contamina com ideologias — e vira guerra de bandeiras. Mas nem tudo precisa virar trincheira política. Ser mãe (ou não ser) não é um ato de direita ou de esquerda. É, acima de tudo, uma escolha íntima. E, como toda escolha íntima, merece respeito, nuance.
Nada disso diminui a maravilha que pode ser a relação entre mãe e filho. O vínculo que se constrói, se rega, se reinventa. O amor feroz, a ternura em estado bruto. Para muitas mulheres, não há experiência mais visceral. E é exatamente por isso que a maternidade merece ser uma escolha, não um fardo herdado.
Se é para mergulhar nesse oceano de entrega e mistério, que seja por decisão própria. Não porque “está na hora”. Não porque “você vai se arrepender”. Não porque alguém disse que uma mulher só se completa com um filho nos braços.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica e pesquisadora da Fiocruz. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), foi consultora da OMS e professora da Universidade Colúmbia e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Siga a colunista no Instagram