Quando Orson Welles contratou a jovem atriz negra Eartha Kitt para atuar como Helena de Troia em uma produção teatral em 1950, não havia Instagram ou X para que uma torrente interminável de protestos rasos fosse publicada. Em vez disso, as plateias que testemunharam o desempenho da novata de 22 anos focaram em seus atributos cênicos e em seu dote para a cantoria, reconhecidos até mesmo pelo jornal militar americano Stars and Stripes, que cravou: “Ela rouba a cena”. No texto, nenhuma menção à pele da atriz, ou qualquer crítica ao fato dela ser nativa da Carolina do Sul, e não da Grécia. Welles a chamou de “a mulher mais promissora do mundo” e, na década seguinte, ela entraria para a história em outro papel tradicionalmente branco: o da Mulher-Gato.

Mais de 70 anos depois, a vencedora do Oscar queniana-mexicana Lupita Nyong’o foi anunciada como intérprete de Helena em A Odisseia, releitura da obra de Homero que Christopher Nolan se prepara para lançar nos cinemas em 16 de julho. Com ela, o público não foi tão elegante. Imediatamente, a notícia se tornou alvo de círculos da internet ligados à extremistas e à supremacia branca. No X, sua própria rede social, o magnata Elon Musk concordou com um comentarista que afirmou que “nenhuma pessoa no mundo vê Lupita como a mulher mais linda do mundo” e que Nolan era um “covarde” que a contratou porque seria considerado racista por colocar uma mulher branca no papel. Meses antes, quando a escalação era apenas um rumor, Musk já havia acusado o cineasta de ter perdido a integridade.
Para além do racismo flagrante, a revolta tem como justificativa o texto original de Homero. Na versão da Odisseia que é amplamente difundida hoje em dia, Helena de Troia é descrita como uma jovem de pele rosada e cabelo claro, cuja beleza atrai a fascinação de Paris, que a sequestra e dá o pontapé na Guerra de Troia. Mas há um detalhe importante a se ressaltar: a Odisseia é uma ficcção.
Por que Lupita Nyong’o pode — e deve — ser Helena de Tróia em A Odisseia
A menção a conflitos geopolíticos e figuras conhecidas pode fazer a trama parecer história irrefutável, como a existência do Império Romano, mas não é um fato real. Em primeiro lugar, Helena de Troia nunca existiu e, portanto, pode ser retratada do modo que qualquer artista quiser. Tratar sua suposta aparência como verdade absoluta também exige aceitar que sua mãe, Leda, a concebeu em uma noite com Zeus, que ocupava a forma de um cisne.
Outra questão a ser considerada é que o enredo de A Odisseia advém da tradição oral grega e foi transformado ao longo de séculos antes de chegar à versão atribuída a Homero. O dilema tem até nome: a questão homérica, que contesta a própria existência do autor e pondera que seu nome pode se referir a uma amálgama de poetas. Por fim, é simplesmente estúpido considerar que “a mulher mais bela do mundo” é um atributo material que possa ser retratado com imagens, e não um floreio que só é levado a sério dentro da literatura fantástica.
Sendo assim, releituras da Odisseia não têm comprometimento algum com a etnografia da Grécia antiga, ou com qualquer ideia ligada ao realismo — o que fica claro dentro de qualquer adaptação teatral dos textos de Homero, frequentemente marcadas por elencos diversos e escolhas anacrônicas de cenografia. O filme de Nolan não é um registro histórico de três séculos atrás, e sim uma produção americana contemporânea que, inevitavelmente, reflete o contexto em que foi elaborada: um país em que mais de 25% da população não é branca, sem contar os inúmeros imigrantes abraçados por sua classe artística.
Ainda assim, o resto do elenco principal do filme é majoritariamente branco, com a exceção de Zendaya, que viverá a deusa Atena. A pele clara está longe de ser raridade em Hollywood, mas poucas atrizes têm a versatilidade de Nyong’o, que se tornou mundialmente famosa no visceral Doze Anos de Escravidão (2013) e brilhou como nunca dentro de papel duplo em Nós (2019). A habilidade será útil em A Odisseia, no qual interpreta não só Helena, mas uma das irmãs da beldade, Clitemnestra. Em nome de um bom filme de fantasia, são detalhes como esse que realmente importam. E, sim, Lupita Nyong’o tem uma beleza digna de dar início a guerras.
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