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Filha do desbravador Amyr Klink, a também velejadora Tamara Klink, de 29 anos, lança nesta terça-feira, em São Paulo, o livro Bom Dia, Inverno, publicado pela Companhia das Letras, no qual relata a aventura de enfrentar os mares gelados da Groenlândia. Em um veleiro de aço de baixo orçamento, batizado de Sardinha 2, ela se tornou a primeira mulher a passar um inverno inteiro completamente sozinha e presa no gelo do Ártico, sob temperaturas extremas, de até -40 °C.
A jornada começou oficialmente em julho de 2023, quando zarpou da França. Após cerca de 20 dias de navegação, Tamara chegou à Groenlândia, iniciando um período de isolamento que duraria oito meses. Em julho de 2024, já estava no porto de Ilulissat, na costa oeste da Groenlândia, celebrando o sucesso da expedição. A seguir, a velejadora fala sobre a experiência do isolamento no Ártico e a a ventura de escrever seu quarto livro.
Como nasceu a ideia dessa expedição?
A viagem surgiu quase como uma continuação natural das anteriores. Eu já vinha fazendo travessias sozinha e queria experimentar um inverno completo em altas latitudes. Passei entre seis e oito meses na Groenlândia, vivendo no barco durante o congelamento e o descongelamento do mar. O livro começou ali, como diário de bordo, e depois foi sendo reconstruído ao longo de três anos de escrita com a Alice.
O livro mistura diário, relato de viagem em forma de romance. Como foi transformar essa experiência em narrativa?
Ele não é exatamente um diário de navegação, que é muito objetivo e também serve como instrumento de navegação e segurança. Depois, escrevendo, percebi que havia muitas coisas importantes que eu não tinha registrado: encontros com caçadores e com um xamã, conversas e medos. O livro acabou incorporando essas memórias e ganhou uma estrutura cronológica da viagem..
Sua primeira grande viagem solo foi em 2020, quando comprou um pequeno barco na Noruega e navegou sozinha até a França, em plena pandemia. Como aquela travessia mudou sua vida?
Mudou completamente. O Sardinha 1 era um barco muito pequeno, comprado pelo preço de uma bicicleta. Naveguei algo entre cem e mil milhas até a França, durante a Covid. Aquilo me deu experiência prática e confiança. Essa viagem virou o livro “Mil Milhas”.
Depois veio a travessia do Atlântico da França ao Brasil, registrada em “Nós”. Em que momento você percebeu que queria seguir ainda mais ao norte, até a Groenlândia?
Acho que fui buscando ambientes cada vez menos previsíveis. O Atlântico Norte tem uma complexidade muito diferente do Atlântico tropical. Há icebergs, neblina constante, cartas náuticas imprecisas, geleiras derretendo. Você perde várias referências tradicionais de navegação.
Você escolheu fazer essa viagem em um barco de aço de apenas dez metros, o Sardinha 2, um dos menores preparados para altas latitudes. Por quê?
Porque era o que eu podia ter. O barco foi pago com royalties dos livros. O aço é pesado e mais lento que o alumínio, mas é acessível e fácil de reparar em qualquer porto. Eu queria um barco simples, possível.
Seu pai fez uma invernagem, na Antártica, em 1989, sem GPS e usando cartas de papel. Quanto dessa herança familiar existe nas suas viagens?
Existe bastante, claro, porque cresci ouvindo essas histórias. Mas nossas abordagens são diferentes. Meu pai construiu um barco do zero; eu preferi adaptar um barco já existente, até por razões ambientais e energéticas. Mas ele nunca foi um mentor no sentido clássico. Até por uma certa humildade, quando perguntava sobre os obstáculos da viagem, sempre me aconselhava a conversar com navegadores mais recentes.
O Atlântico Norte costuma ser descrito como muito mais hostil do que as travessias tropicais. Qual foi o momento mais perigoso da viagem?
Houve vários. Uma vez caí na água gelada, que era um dos meus maiores medos. Por sorte, não havia vento, e consegui voltar. Em outra, o barco ficou preso entre icebergs, que estavam conectados por baixo d’água. Não dava para ver. Consegui escapar empurrando o gelo e usando a ré. Mas o meu maior desafio era cansaço, Eu dormia muito pouco tentando entender o movimento do gelo.
As mudanças climáticas apareceram de forma concreta durante a viagem?
Muito. O gelo estava mais fino e instável. Os próprios moradores comentavam acidentes recentes, mortes de caçadores e até de um pesquisador japonês. O inverno ficou menos previsível. Havia períodos de congelamento e descongelamento sucessivos.
Você teve medo?
No começo, sim. Mas muitos medos eram projeções das outras pessoas. Antes de viajar as pessoas compartilharam experiências de ataques de ursos, raposas raivosas, de depressão causada pelo frio e o isolamento e até ataques de espíritos. Aos poucos fui entendendo quais eram os perigos reais e quais eram imaginários.
Como era a rotina durante tantos meses isolada?
Nunca existe realmente um “nada”. O ambiente está sempre mudando: tempestades, formação de cristais, neblina, gelo se movendo. Eu passei a observar muito mais o céu. A lua refletida na neve parecia transformar a noite em dia. E as auroras boreais viraram parte da rotina.
A escassez muda a percepção das coisas?
Completamente. Água líquida, por exemplo, era raríssima. Eu derretia gelo ou coletava água de icebergs. Em muitos momentos, um copo d’água tinha mais valor do que vinho. Isso muda a forma como você pensa abundância e felicidade.
Como você se preparou para passar tantos meses sem reabastecimento?
Eu já morava em barco havia bastante tempo, então sabia o que de fato era necessário. Levei roupas técnicas, material médico, peças de reparo e comida planejada com uma nutricionista. A base era vegana: grãos germináveis, arroz, feijão, lentilha, conservas. Também aprendi a pescar durante a viagem, o que ajudava a economizar as provisões.
A escrita teve papel importante durante a invernagem?
Foi fundamental. Escrever organizava meus pensamentos. O diário de bordo ajuda até em resgates. Também gravei muitos áudios, com sons do gelo, animais, pensamentos aleatórios e até músicas ruins.
Que tipo de pensamento aparece em um isolamento tão longo?
Os mais banais possíveis. Eu lembrava da escola, de conversas antigas, de contas, da minha avó, de amigos dizendo que aquilo era uma loucura.
Como era a comunicação com a família?
Muito limitada. Eu usava um telefone satelital antigo, que funcionava mal para ligações, mas permitia trocar e-mails simples. Eram mensagens cotidianas: alguém aprendendo a andar de bicicleta, notícias da família, alertas práticos sobre o barco.
O que essa experiência ensinou?
Que preparação e atenção importam mais do que sorte. E que abundância não significa satisfação. Quando coisas como água e luz se tornam raras, elas passam a ter outro valor.
A solidão incomodou?
Não. Ela ajudou. Sou uma navegadora melhor quando estou sozinha. Navegando sozinha você precisa exercer todas as funções ao mesmo tempo e aprende um pouco de tudo. A solidão também nunca foi exatamente um problema para mim. Eu particularmente gosto.
E o que vem depois dessa travessia?
Continuo morando no barco, mas quero voltar para a África.