
A Brown-Forman, dona da marca de uísque Jack Daniel’s, rejeitou uma oferta de aquisição de cerca de US$ 15 bilhões feita pela rival Sazerac, em mais um capítulo da consolidação acelerada da indústria global de bebidas alcoólicas.
Segundo o The Wall Street Journal, a proposta previa o pagamento de US$ 32 por ação em dinheiro e contava com apoio financeiro do Wells Fargo e da gestora Apollo Global Management.
O conselho da Brown-Forman comunicou formalmente a rejeição da oferta nesta semana.
A empresa, sediada em Louisville, no Kentucky, é controlada pela família Brown, fundadora do negócio há mais de 150 anos. Embora tenha capital aberto, a família mantém o controle da maioria das ações com direito a voto, fator que historicamente dificulta tentativas de aquisição.
A recusa ocorre poucas semanas após fracassarem as negociações entre a Brown-Forman e a francesa Pernod Ricard, dona da vodka Absolut e do whisky Chivas Regal.
As conversas envolviam uma possível fusão com participação acionária, mas esbarraram em divergências sobre estrutura e avaliação financeira do negócio.
Pressão sobre fabricantes cresce em meio à desaceleração do consumo
A movimentação acontece em um momento de forte pressão sobre o setor mundial de bebidas destiladas.
Após anos de expansão puxada pelo consumo premium durante e após a pandemia, fabricantes enfrentam desaceleração nas vendas, inflação persistente e mudança de hábitos entre consumidores mais jovens.
Nos Estados Unidos, maior mercado de bebidas premium do mundo, empresas do setor relatam queda na demanda por destilados mais caros, especialmente entre consumidores de renda média afetados por juros elevados e aumento do custo de vida.
Ao mesmo tempo, grupos tradicionais tentam ampliar escala e diversificar portfólio diante da competição crescente de bebidas prontas para consumo, energéticos alcoólicos e marcas artesanais.
A Brown-Forman, além da Jack Daniel’s, controla marcas como Woodford Reserve e Herradura. Já a Sazerac reúne nomes como Buffalo Trace, Fireball Cinnamon Whisky e os coquetéis prontos BuzzBallz.
Mercado vive corrida por marcas tradicionais
Analistas avaliam que o interesse pela Brown-Forman reflete uma corrida por marcas históricas e de forte presença internacional, consideradas ativos estratégicos em um setor cada vez mais concentrado.
Nos últimos anos, gigantes da indústria ampliaram investimentos em uísques premium e tequilas de alto valor agregado, segmentos que seguem mais resilientes mesmo em períodos de desaceleração econômica.
A própria Sazerac expandiu agressivamente sua operação na última década, impulsionada pela explosão da demanda por bourbon americano. A empresa permanece privada e controlada pela família Goldring.
A consolidação também ocorre em meio ao avanço de fundos de investimento sobre o setor de bebidas, atraídos por marcas com forte fidelidade do consumidor e elevada margem de lucro.
Tarifas e tensões comerciais elevam incerteza
Outro fator que pesa sobre o setor é o aumento das tensões comerciais entre Estados Unidos, Europa e China.
Nos últimos anos, bebidas alcoólicas passaram a ser alvo recorrente de disputas tarifárias envolvendo produtos agrícolas e industriais.
Fabricantes de bourbon americano, por exemplo, enfrentaram sobretaxas na União Europeia durante embates comerciais iniciados ainda no primeiro governo de Donald Trump.
Executivos do setor também monitoram o impacto da valorização de commodities agrícolas, custos logísticos e possíveis mudanças regulatórias ligadas à saúde pública e publicidade de bebidas alcoólicas.
Mesmo após rejeitar a proposta da Sazerac, a Brown-Forman continua sendo vista por analistas de mercado como um dos ativos mais cobiçados da indústria de destilados, justamente pela força internacional da Jack Daniel’s e pelo controle familiar considerado estável.