
A nova edição do Desenrola Brasil, programa de renegociações de dívidas do governo federal, tem o potencial de destravar uma parte importante da renda das famílias hoje comprometida com os débitos, liberar mais dinheiro para o consumo e, com isso, deve até ajudar o produto interno bruto (PIB) a ficar maior neste ano.
São estas as conclusões do time de análises econômicas da corretora XP Investimentos, que cruzou as regras de renegociação do programa com os dados atuais de endividamento dos brasileiros para estimar quais podem ser os impactos do Desenrola para a economia neste ano. A estimativa da corretora é de que a injeção de incentivo pode aumentar o crescimento do PIB, projetado por ela em 2% para este ano, em até 0,15 ponto percentual, ou seja, para algo entre 2,1% e 2,2%. O estudo foi detalhado em um relatório enviado pela XP a clientes nesta terça-feira, 12.
O Desenrola 2.0 permite a renegociação de dívidas de até 15.000 reais que estejam com os pagamentos atrasados entre 90 dias e até dois anos, e é voltado a famílias com renda de até 8.105 reais. Os descontos no saldo devedor, a ser negociado diretamente com o banco, podem chegar a até 90%. As dívidas no cartão de crédito, o rotativo do cartão, o cheque especial e o crédito pessoal comum (sem garantias e sem consignado), que são também as que têm as taxas de juros e de inadimplência mais altas, são as prioridades do programa.
O levantamento da XP, que verificou os dados de mercado do Banco Central, verificou que o volume total de dívidas nessas modalidades chega atualmente a 77,7 bilhões de reais. Considerado o desconto médio de 65% que o governo estimou para as rodadas de renegociação, a conta é que 50,9 bilhões de reais desses débitos podem simplesmente deixar de existir.
Como o saldo restante, de 26,8 bilhões de reais, é bem menor, e poderá ser refinanciado em prazos mais longos e a juros mais baixos, as parcelas também ficarão significativamente menor. É essa combinação de estímulos que deve ajudar a liberar renda do orçamento das famílias que entrarem no programa e ser transformado em consumo. “Nossos cálculos indicam diminuição nos encargos de juros de aproximadamente 8,2 bilhões por mês”, diz o relatório.
Atualmente e níveis recordes, o comprometimento das rendas da família com o pagamento de parcelas de juros de dívidas está em 27,4%, de acordo com o Banco Central – quer dizer, quase um terço do dinheiro que ganham vai para os bancos. Os números desconsideram o crédito adquirido para financiamentos imobiliários. A conta da XP é que isso pode ser reduzido para 25,9% ao logo desse ano. São poucos pontos percentuais, mas, medidos em dinheiro na mão, tratam-se de alguns bilhões de reais. Apenas por conta disso, a corretora revisou a sua projeção para o aumento do consumo das famílias neste ano de 1,9% para 2,1%. E é deste pedaço a mais em consumo que pode vir o crescimento extra para o PIB.