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Nigel Farage vai ter uma audiência com o rei Charles III, ser indicado por ele a formar o governo e chefiar o Reino Unido como um representante de fora dos partidos tradicionais pela primeira vez em mais de dois séculos. Só de pensar nisso, os nomes mais ligados ao sistema, seja à direita ou à esquerda, têm crises de rejeição. Mas é exatamente o que acontecerá segundo as pesquisas e as projeções de voto: depois de chacoalhar as estruturas liderando o vitorioso referendo no qual foi aprovada a saída do reino da União Europeia, ele tem mais espaço para colocar a política tradicional de cabeça para baixo.
Mostra a mais recente projeção. Com base nos arrasadores resultados das eleições para o equivalente às câmaras de vereadores, o partido Reforma, outra criação a partir do nada de Farage, elegeria 284 representantes no Parlamento. Detalhe fundamental: hoje, tem apenas oito representantes. O Partido Trabalhista seria radicalmente ceifado, elegendo apenas 110 parlamentares (contra os 403 atuais). E o Partido Conservador, o mais antigo do mundo, teria que fazer o que jura que jamais fará e colocar seus míseros 96 deputados num governo de coalizão com Farage.
É de tirar o fôlego para quem entende que a política britânica é a mãe de todos os modelos de governos parlamentaristas de todo o mundo, tendo desenvolvido organicamente o sistema bipartidário, um mais à direita, outro mais à esquerda, alternando-se no poder sem que ninguém falasse em refundação – ou muito menos revolução.
Mas revolucionário é exatamente o que é Farage, um tipo bonachão, ex-corretor da bolsa de mercadorias, considerado longamente como uma figura folclórica a não ser levado muito a sério. Desde o Brexit, ninguém mais, no juízo perfeito, não o leva a sério. Farage convenceu uma pequena maioria dos britânicos a fazer o impossível e votar para tirar o país da União Europeia.
CHEQUE DO GOVERNO
Os motivos são muito parecidos com os que o tornaram um sério candidato a primeiro-ministro: os eleitores não suportam mais a chegada em massa de imigrantes que, tão logo pisam em solo britânico, recebem casa, comida, celular e outros benefícios. O Brexit não mudou isso, pois o país continua atado à Corte Europeia de Direitos Humanos e suas exigências para o tratamento VIP dispensado aos clandestinos.
Obviamente, a ascensão de Nigel Farage também reflete a insatisfação da opinião pública com o desempenho pálido de todos os governos dos últimos anos, sejam conservadores ou trabalhistas, como o atual, chefiado pelo impopular e rejeitado Keir Starmer, um advogado de esquerda com conexão zero com o povo, tão fragorosamente batido nas eleições municipais que enfrenta uma série rebelião interna em seu próprio partido. Já está escrito nas estrelas que será contestado como líder dos trabalhistas e dificilmente chegará à data das próximas eleições, em 2029.
Curiosamente, Farage não tem grandes propostas no campo da economia e nem é um apologista do liberalismo, nascido justamente em terras britânicas. Tem mais afinidades com o populismo de direita, mantendo as estruturas do Estado protetor, mesmo quando este gere distorções como um leque de benefícios que leva extratos da população a preferir simplesmente não trabalhar pois o “cheque do governo”, o equivalente à bolsa família, é mais vantajoso.
Ele pode ter as inconsistências que for, mas o público está tão insatisfeito que releva seus muitos defeitos. Farage aparece hoje nas pesquisas como o político que mais entende os anseios da população comum. O establishment vai ter que engoli-lo.