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Na quinta-feira, 7, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou o recolhimento de detergentes lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes da marca Ypê por falhas no controle de qualidade dos produtos. Em nota enviada à VEJA, a agência destacou que a decisão também se baseou no histórico de irregularidades da marca.
“A ação fiscal realizada entre 27 e 30 de abril na fábrica de Amparo (SP) levou em conta fatores novos, mas também o histórico de problemas com contaminação. Casos anteriores envolvendo a Ypê podem ser consultados em nosso sistema de produtos irregulares. Além do caso de 2026, constam uma suspensão de produtos em 2025 e cerca de sete suspensões em 2024”, escreveu a Anvisa.
Em 2025, a Anvisa recolheu os produtos Lava Roupas Líquido Ypê Express, Lava Roupas Líquido Tixan Ypê e Lava Roupas Líquido Power Act por contaminação por uma bactéria chamada Pseudomonas aeruginosa, considerada de risco especialmente para pessoas imunossuprimidas, como pacientes em tratamento de câncer.
Já em 2024, as medidas atingiram produtos como as versões capim-limão, maçã, coco, limão, neutro e clear care, além do detergente lava-louças Ypê na versão padrão. Em todos os casos, as decisões incluíram suspensão da comercialização, distribuição e uso dos produtos.
Em nota, a Ypê declarou que possui “fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes”, e afirmou que os produtos atingidos pela medida “são seguros e não representam qualquer risco ao consumidor”.
“A empresa mantém diálogo contínuo e colaborativo com a Anvisa e, com a apresentação de informações e evidências técnicas adicionais, confia plenamente na reversão da decisão no menor prazo possível”, disse a companhia, que entrou com recurso para que a agência reavalie a decisão.
Disputa política
Nas redes sociais, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro passaram a afirmar, sem apresentar provas, que a medida teria motivação política. As publicações sugerem que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estaria utilizando a Anvisa para perseguir empresários alinhados ao bolsonarismo.
A narrativa ganhou força após usuários relembrarem que integrantes da família Beira, responsável pela empresa, fizeram doações à campanha de Bolsonaro em 2022. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o vice-presidente de São Paulo, coronel Ricardo Mello Araújo, saíram em defesa da Ypê, exibindo fotos dos produtos nas redes e incentivando o consumo.
Falhas estruturais graves
Em resposta à VEJA, a Anvisa também detalhou, com exclusividade, os achados da inspeção realizada entre os dias 27 e 30 de abril na fábrica da empresa, em Amparo, no interior de São Paulo.
Entre os principais problemas estão:
- Produtos sendo mantidos de forma inadequada dentro da fábrica
- Falhas no sistema de controle de qualidade
- Dificuldade de rastrear a origem e o caminho dos produtos dentro da produção
- Reprocessamento de produtos
- Problemas na limpeza das instalações industriais
- Falhas no controle da água usada na fabricação
- Armazenamento inadequado de matérias-primas ou produtos acabados
- Falhas na segregação entre etapas e materiais
- Controle insuficiente de microrganismos (como bactérias e outros contaminantes)
Agora, o caso segue para a próxima etapa dentro da agência. Na quarta-feira, 13, a Diretoria Colegiada da Anvisa deve analisar o recurso apresentado pela Ypê e decidir se mantém ou suspende os efeitos da medida sanitária.