Quando recebeu o diagnóstico de que a filha Nicole tinha síndrome de Down, Márcia Binsfeld Furlan lembra que o primeiro sentimento foi o do ”desconhecido”. Vieram as dúvidas, os medos, as preocupações e, logo depois, uma rotina intensa de terapias, consultas, estudos e adaptações: fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, equoterapia e estimulação precoce.

“Foi uma trajetória difícil, sem romantização, mas também muito plena”, resume.

Hoje, aos 18 anos, Nicole está no terceiro ano do Ensino Médio. A irmã mais velha, Bárbara, de 23, se formou em Psicologia. E Márcia, depois da aposentadoria, percebeu outra transformação acontecendo silenciosamente dentro dela mesma: a necessidade de continuar estimulando a própria mente depois de décadas vivendo uma rotina de aprendizado constante como mãe.

Foi nesse contexto que conheceu o ‘’Método Supera’’ de estimulação cognitiva. “Com o fim da rotina intensa de trabalho, senti necessidade de manter o cérebro ativo. Fiz uma aula experimental e me apaixonei. Hoje, vejo o quanto isso é significativo para mim”, conta.

Em 2026, Nicole também começou a frequentar as mesmas aulas que a mãe. Márcia diz que passou a se emocionar ao acompanhar o desenvolvimento da filha nas atividades cognitivas e nos exercícios feitos em casa.

A história das duas ajuda a ilustrar um tema que vem despertando o interesse crescente da ciência: afinal, o que acontece com o cérebro de uma mulher depois da maternidade?

Por muito tempo, o senso comum ajudou a espalhar a ideia de que mães se tornam mais esquecidas, distraídas ou cognitivamente sobrecarregadas. O chamado “mommy brain” virou quase uma caricatura cultural associada à maternidade.

Mas pesquisas recentes começam a mostrar exatamente o contrário. Segundo a neurocientista Livia Ciacci, ser mãe provoca uma das transformações mais sofisticadas do cérebro adulto. “O cérebro passa por uma verdadeira reprogramação para lidar com um ambiente mais complexo, imprevisível e exigente”, explica.

 

De acordo com ela, regiões ligadas à empatia, tomada de decisão, vínculo emocional e processamento social sofrem alterações estruturais importantes já durante a gestação.

Hormônios como ocitocina, dopamina e estrogênio remodelam circuitos neurais ligados à motivação, recompensa e cuidado.

E essas mudanças não desaparecem depois do nascimento do filho.

Estudos mostram que alterações no cérebro materno podem ser identificadas anos depois da maternidade, sugerindo que a experiência deixa marcas duradouras na arquitetura cerebral feminina.

Na prática, isso pode significar maior capacidade de adaptação, leitura emocional mais refinada, decisões mais rápidas em contextos de pressão e ampliação da chamada resiliência cognitiva.

“O que muitas pessoas interpretam como distração é, muitas vezes, uma reorganização das prioridades cerebrais”, afirma Livia. Para pesquisadores, a maternidade funciona como um processo contínuo de estimulação mental. Resolver problemas o tempo inteiro, antecipar riscos, administrar emoções, lidar com múltiplas demandas e aprender constantemente fazem parte da rotina de milhões de mães, e tudo isso exige intensa atividade cerebral.

A relação entre estímulo cognitivo e saúde mental ao longo da vida já aparece em pesquisas sobre envelhecimento. Um estudo conduzido pela USP, com 207 idosos, mostrou que programas estruturados de estimulação mental foram capazes de reduzir em até 60% as queixas de memória, melhorar cerca de 45% o desempenho cognitivo e ainda diminuir sintomas depressivos.

Para especialistas, a maternidade pode representar justamente uma das formas mais intensas e complexas desse exercício contínuo do cérebro ao longo da vida adulta. A ciência ainda busca compreender até onde essas mudanças podem chegar. Mas uma hipótese começa a ganhar força entre pesquisadores: talvez a maternidade não transforme apenas a vida emocional de uma mulher. Talvez ela transforme, literalmente, a forma como o cérebro aprende, se adapta e envelhece. E talvez seja por isso que tantas mães, ao olharem para trás, percebam que a maior mudança causada pelos filhos nunca aconteceu apenas no mundo ao redor, e sim dentro delas.



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