O estudante da USP (Universidade de São Paulo) Rael Brito de Paula relatou à CNN Brasil que o processo de desocupação da reitoria da universidade, realizado na madrugada deste domingo (10) pela Polícia Militar, foi “absurdamente violento” e causou um “trauma psicológico” aos estudantes.
A ocupação havia começado na última quinta-feira (7), em protesto por reivindicações ligadas à vida estudantil e aos salários dos servidores. Segundo Rael, o movimento não demonstrou qualquer sinal de violência ou ameaça.
De acordo com o relato, a Tropa de Choque cercou o prédio por volta das 04h15, enquanto os estudantes dormiam. Logo depois, empurraram o grupo para dentro do saguão fechado e teriam iniciado as agressões.
Foi um processo absurdamente violento. Além de usar cassetetes e bombas de efeito moral, os policiais fizeram um corredor polonês na saída do prédio pra agredir todos os estudantes que passavam. Houve estudantes com fraturas, sangramentos, uma estudante desmaiou, fora o trauma psicológico de acordar no meio da noite com uma violência completamente descabida
Imagens registradas por estudantes mostram a atuação da PM no local. Veja abaixo:
Rael pede que a reitoria seja responsabilizada e que abra a mesa de negociação com os estudantes: “A ocupação se desenvolveu de forma pacífica, com programação cultural, política, assembleias democráticas. Essa ação comandada pelo governo do Estado mostra que essa reitoria não defende o diálogo e a democracia, mas manutenção de um quadro de precarização da educação e de descaso com os estudantes mais pobres”, conclui.
Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) afirmou que a PM realizou a ação de desocupação do local e que não houve feridos. A pasta disse ainda que os agentes constataram danos ao patrimônio público no prédio da Reitoria.
Veja nota completa:
“A Polícia Militar realizou, neste domingo (10), a desocupação do saguão da Reitoria da USP, ocupado por aproximadamente 150 pessoas desde a última quinta-feira (7). Cerca de 50 policiais participaram da ação, que foi concluída sem registro de feridos. Toda a ação foi registrada pelas câmeras operacionais portáteis dos policiais, e as imagens serão anexadas aos autos da ocorrência.
Após a desocupação, uma vistoria no espaço constatou os danos ao patrimônio público, entre eles a derrubada do portão de acesso, portas de vidro quebradas, carteiras escolares danificadas, mesas avariadas e danos à catraca de entrada.
No local, também foram apreendidos entorpecentes, armas brancas e objetos contundentes, como facas, canivetes, estiletes, bastões e porretes. Quatro pessoas foram conduzidas ao 7º Distrito Policial, onde foi registrado boletim de ocorrência por dano ao patrimônio público e alteração de limites. Após a qualificação, elas foram liberadas.
A Polícia Militar ressalta que eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas. O policiamento segue no local para garantir a ordem pública e a integridade do patrimônio público”.
A CNN Brasil entrou em contato com a USP para um posicionamento, mas ainda não houve retorno. O espaço segue aberto.
Entenda o caso
A PM utilizou bombas de efeito moral e gás lacrimogênio para realizar a desocupação da reitoria da USP, motivada pela indignação de ações ligadas à vida estudantil e ao salário dos servidores, na madrugada deste domingo (10).
“A ação, de responsabilidade do reitor Aluísio Segurado e de seu chefe de gabinete Edmilson Dias de Freitas, deve ser profundamente repudiada por toda a comunidade universitária. Aluísio, Edmilson e o conjunto da Reitoria escolheram ignorar as reivindicações por melhores políticas de permanência de dezenas de milhares de estudantes e reprimir alunos e alunas que sustentam cotidianamente o ensino, a pesquisa e a extensão dentro da universidade, tudo isso em pleno Dia das Mães”, diz o pronunciamento do DCE.
Por outro lado, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse que toda a ação foi registrada pelas câmeras operacionais portáteis dos policiais, e que as imagens serão anexadas ao boletim de ocorrência.
A pasta diz ainda que foi uma operação concluída “sem registro de feridos” e que houve danos ao patrimônio público, visto que tiveram derrubada de portas, mesas e danos à catraca da universidade.
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Entenda a greve
Os estudantes aprovaram a paralisação em 14 de abril. Liderado pelo DCE, o movimento começou inicialmente em apoio a uma mobilização de servidores contra uma gratificação anunciada pela universidade exclusivamente para professores.
Entre 150 e 200 estudantes, segundo o DCE, se revezaram em diferentes turnos durante a greve, com divisão de tarefas, agenda cultural e limpeza do espaço. Eles insistem nos pontos levantados nas últimas semanas, mas a reitoria descartou novas rodadas de negociação.
Após pressão e mobilização, os servidores conseguiram avanços salariais e encerraram a paralisação. Os estudantes, porém, decidiram manter a greve e passaram a concentrar esforços em suas próprias reivindicações.
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A principal demanda é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), que atualmente oferece benefícios entre R$ 335 para estudantes residentes em moradia estudantil e R$ 885 para auxílio integral.
A USP propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE. Dessa forma, o auxílio integral passaria para R$ 912 mensais, enquanto o auxílio parcial para estudantes com moradia subiria para R$ 340. A proposta, no entanto, é considerada insuficiente pelos estudantes, que defendem um reajuste para R$ 1.804, valor equivalente ao salário mínimo paulista.
Segundo eles, trata-se de uma reivindicação antiga. “Faz mais de um ano que os estudantes já estabeleceram que uma de suas pautas principais em relação às bolsas estudantis está ligada ao aumento para um salário mínimo”, afirmou Dany Oliveira, estudante de Artes Cênicas.
A reitoria abriu três rodadas de negociação com os estudantes, mas, diante da rejeição da proposta apresentada, decidiu encerrar unilateralmente as conversas, gerando insatisfação entre os grevistas.
Entre outros pontos, os estudantes criticam questões estruturais da universidade, como a gestão do restaurante universitário, conhecido como “bandejão”, a moradia estudantil e a situação do Hospital Universitário (HU), que, segundo manifestantes, perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década.
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo
(Com informações do Estadão Conteúdo)