Mesmo com a explosão de músicas criadas por inteligência artificial nas plataformas de streaming, esse tipo de conteúdo ainda enfrenta dificuldade para conquistar ouvintes. Embora milhares de faixas geradas por IA sejam enviadas diariamente aos aplicativos, os usuários continuam consumindo majoritariamente artistas reais e canções já conhecidas do público, mesmo que algumas tenham sido lançadas há décadas. 

Na Deezer, cerca de 44% das músicas enviadas todos os dias são produzidas artificialmente — o equivalente a aproximadamente 75 mil uploads diários. Apesar do volume, essas faixas representam apenas entre 1% e 3% das reproduções totais da plataforma.

Michael Jackson
1 de 3

Michael Jackson

Getty Images

Justin Bieber também teve músicas antigas viralizadas após show no Coachella
2 de 3

Justin Bieber também teve músicas antigas viralizadas após show no Coachella

Divulgação

Uma música lançada por Katy Perry há 16 anos voltou às paradas após impulsionamento nas redes sociais
3 de 3

Uma música lançada por Katy Perry há 16 anos voltou às paradas após impulsionamento nas redes sociais

Reprodução/YouTube

Entre as 100 músicas mais ouvidas globalmente no Spotify atualmente, nenhuma foi criada integralmente por inteligência artificial. O ranking é dominado por artistas consolidados e por faixas antigas que voltaram a viralizar graças às redes sociais, filmes, séries e trends no TikTok.

Especialistas apontam que o consumo musical está diretamente ligado à identificação emocional e à memória afetiva, algo que projetos gerados por IA ainda não conseguem sustentar por muito tempo.

“Uma das características da pós-modernidade é a instabilidade de referenciais, o que torna o presente e o futuro incertos, enquanto as memórias apresentam-se como um refúgio coerente e significativo”, explica o doutor em ciências da comunicação Maximiano Cirne.

A lógica das plataformas também favorece o retorno de músicas antigas. Canções lançadas há mais de uma década frequentemente voltam às paradas após viralizarem em vídeos curtos ou serem impulsionadas por produções audiovisuais.

Um exemplo é Michael Jackson, que mesmo 17 anos após a sua morte conta com seis músicas entre as 50 mais ouvidas do Spotify, impulsionadas pelo recente lançamento de sua cinebiografia; e Katy Perry, com The One That Got Away, lançada em 2010 e recentemente impulsionada nas redes sociais. Justin Bieber aparece no topo do ranking com Beauty And The Beat, a faixa de 2012 ganhou projeção após apresentação do canadense no Coachella em abril.

Lembra deles?

Enquanto isso, artistas criados por inteligência artificial enfrentam dificuldade para manter o interesse do público. Em 2025, a cantora fictícia Tocanna viralizou com São Paulo, paródia inspirada em Alicia Keys e Jay-Z. O projeto chegou a alcançar 180 mil ouvintes mensais, mas perdeu quase 40% da audiência nos meses seguintes.

A banda fictícia The Velvet Sundown passou por situação semelhante. Após ultrapassar 1 milhão de ouvintes mensais em julho de 2025, o grupo caiu para cerca de 125 mil em maio deste ano.

Mesmo com avanço da IA, clássicos seguem no topo das plataformas - destaque galeria

Tocanna é uma cantora gerada por IA que ganhou projeção nas redes sociais
1 de 4

Tocanna é uma cantora gerada por IA que ganhou projeção nas redes sociais

Reprodução/Instagram

O grupo The Velvet Sundown lançou seu primeiro álbum no dia 5 de junho
2 de 4

O grupo The Velvet Sundown lançou seu primeiro álbum no dia 5 de junho

A banda Gorillaz fez sucesso na década de 2000
3 de 4

A banda Gorillaz fez sucesso na década de 2000

A banda HUNTR/X, de Guerreiras do K-Pop, é outro exemplo de artista fictício que faz sucesso com o público
4 de 4

A banda HUNTR/X, de Guerreiras do K-Pop, é outro exemplo de artista fictício que faz sucesso com o público

Divulgação/Netflix

Para a doutora em comunicação e estudos de cultura pop Tatyane Larrubia, o principal diferencial está na construção de narrativa e conexão emocional com o público.

“Artistas fictícios com uma boa narrativa conseguem facilmente conquistar o público e criar fãs. Isso não está necessariamente ligado à inteligência artificial. Está ligado a um contexto e uma narrativa que realmente geram identificação”, afirma.

Projetos fictícios criados por humanos ajudam a explicar essa diferença. Bandas como Gorillaz construíram uma base sólida de fãs ao longo dos anos graças ao universo narrativo em torno dos personagens. Já produções geradas apenas por IA costumam viralizar rapidamente, mas enfrentam dificuldade para manter relevância.

Cirne acredita que o principal desafio da música feita por inteligência artificial ainda seja criar vínculos afetivos duradouros com os ouvintes.

“Talvez a questão principal não seja necessariamente se a música foi criada por um ser humano ou por uma inteligência artificial, mas sim a capacidade daquela obra de gerar experiências emocionais duradouras e conexões afetivas com quem a escuta”, analisa.
O avanço desse tipo de conteúdo também levou plataformas a adotarem medidas de controle. Em 2025, o Spotify removeu mais de 75 milhões de faixas consideradas spam, muitas delas possivelmente ligadas à inteligência artificial.

Já a Deezer passou a identificar álbuns criados com IA e excluiu esse tipo de faixa de playlists e recomendações voltadas à música tradicional. Atualmente, plataformas como YouTube Music e Amazon Music ainda não exibem avisos claros sobre o uso de inteligência artificial nas músicas disponibilizadas aos usuários.





Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *