Desde o fim de abril, Mali vive mais uma crise ligada ao terrorismo e tenta não só conter o avanço de rebeldes e jihadistas ligados à Al-Qaeda, mas também recuperar regiões tomadas pelos insurgentes. Para isso, o governo local conta com a ajuda de ex-mercenários russos, que atuam no país há alguns anos.
Nos últimos dias, o Africa Corps divulgou vídeos e fotos de operações no território malinense. Elas visam membros do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) e separatistas da Frente de Libertação de Azawad (FLA), responsáveis pela nova onda de insegurança no país africano.
Nas imagens é possível ver combatentes russos realizando patrulhas aéreas, além de operações em solo. De acordo com a última atualização da organização da Rússia, mais de 2,5 mil terroristas teriam sido mortos no Mali, nos primeiros dias de combate.
Confira:
A ofensiva contra o atual governo do Mali, comandado por uma junta militar desde 2021, começou em 25 de abril. Segundo o Exército local, ao menos quatro regiões do país foram alvo de ataques, incluindo a capital Bamako. O general Sadio Camara, então Ministro da Defesa, foi assassinado.
De acordo com o Ministério da Defesa da Rússia, combatentes do Africa Corps impediram tentativas dos insurgentes de capturar pontos estratégicos do país, incluindo o Palácio Presidencial do Mali. Nem tudo, no entanto, foi vitória para os militares de origem russa.
A própria organização, que atua no Mali ao lado do governo local, admitiu que suas forças decidiram se retirar da cidade de Kidal, no norte do país, após a ofensiva dos insurgentes. Desde então, o local está sob o controle da coalizão entre JNIM e FLA.
Segundo a última atualização das Forças Armadas do Mali, militares do país realizam um “reposicionamento” de forças em Kidal, com o objetivo de retomar o controle do local.
O que é o Africa Corps e por que está inserido na África?
Fundado em 2023, o Africa Corps é considerado uma versão “repaginada” do Grupo Wagner, que durante anos promoveu os interesses da Rússia ao redor do mundo, pela via militar, apesar de o Kremlin nunca ter admitido ligações com a organização de mercenários.
A criação do grupo coincide com a morte de Yevgeny Prigozhin, um dos homens fortes de Vladimir Putin que por anos comandou o Wagner. Ele morreu em um acidente aéreo perto de Moscou, meses após liderar uma tentativa de motim dos mercenários contra o governo russo.
Com a morte de Prigozhin, um vácuo de liderança atingiu o Grupo Wagner. Na tentativa de contornar a situação, Moscou fundou o Africa Corps e ex-combatentes da organização de mercenários foram integrados às suas fileiras.
A grande diferença entre as duas organizações, apesar de prestarem serviços semelhantes a países que buscam parceiros em questões de segurança, é que o Africa Corps está vinculado, oficialmente, ao Ministério da Defesa da Rússia. Por isso, combatentes ligados ao novo grupo não possuem status de mercenários, como acontecia com russos que integravam o Wagner, já que são considerados membros oficiais do aparato estatal russo.
Mudanças regionais favoreceram presença de combatentes
A presença de combatentes russos na África também coincide com mudanças regionais. Depois de uma série de golpes militares, alguns países do continente, principalmente aqueles localizados na região do Sahel, enfrentaram uma mudança em suas políticas externas.
No Mali, por exemplo, a junta militar liderada pelo general Assimi Goïta virou as costas ao Ocidente, incluindo a ex-colônia França, em 2021. Naquele ano, o novo líder do país firmou uma parceria de segurança com o Grupo Wagner, que se retirou oficialmente da nação africana no último ano, e foi substituído pelo Africa Corps.
Com isso, militares franceses foram expulsos do país. A principal queixa da nova administração era de que os antigos aliados pouco faziam em relação a defesa contra grupos terroristas, que ganharam força no continente na última década.
Países como Burkina Faso e Níger seguiram o mesmo caminho e se afastaram da influência francesa.
Foi nesse cenário de instabilidade política e de mudanças que a Rússia passou a oferecer ajuda e cooperação em diversas áreas, mas com foco especial na questão de segurança, por meio do envio de combatentes do Africa Corps.
Até o momento, além do Mali há registros de combatentes do grupo atuando em países como Líbia, Sudão, Guiné Equatorial, Níger, Burkina Faso e República Centro Africana (RCA).