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Grandes metrópoles no exterior, como Londres, na Inglaterra, Paris, na França, e Sydney, na Austrália, encararam e venceram a muito custo e perseverança o enorme desafio de voltar a dar vida aos rios que cortam suas zonas urbanas. No Brasil, o projeto mais ambicioso do tipo realizado nos últimos anos envolveu o Pinheiros, curso de água de 25 quilômetros que atravessa as zonas Oeste e Sul de São Paulo. A situação era bastante crítica antes do início das obras. Ao longo das décadas, ele havia ganho o aspecto de um canal poluído, com odor forte e lixo flutuante. Transformado em esgoto pelo despejo constante de detritos industriais e domésticos, virou um cartão-postal do descaso ambiental. O projeto iniciado em 2019, no governo de João Doria, tinha como objetivo recuperar o local e transformá-lo na versão paulistana do Puerto Madero, área portuária de Buenos Aires abandonada que, após um grande investimento, mudou completamente de aspecto e passou a ser ocupada por bares, restaurantes, lofts e escritórios, estando hoje no posto de um dos bairros mais caros da América Latina.

PROMESSA - Tarcísio: governo diz que a melhora será visível nos próximos anos
PROMESSA - Tarcísio: governo diz que a melhora será visível nos próximos anos (Paulo Guereta/Governo Estado SP/.)

Batizado de Novo Rio Pinheiros, o projeto de criar um Puerto Madero paulistano começou em ritmo forte, impulsionado por um investimento de 1,5 bilhão de reais. A parte principal do esforço consistiu na realização em prazo recorde de uma das maiores obras de saneamento básico no país. Em ritmo de mutirão, no espaço de três anos, 550 000 ligações para a rede de esgoto em residências e condomínios ao redor do curso de água foram realizadas. Para suportar a rede expandida, surgiram cinco novas estações de tratamento. Em paralelo, obras de dragagem retiraram do Pinheiros 700 000 toneladas de detritos. A qualidade do rio começou a melhorar e até peixes e tartarugas voltaram a ser vistos por lá.

Lamentavelmente, o curso da revitalização acabou sendo interrompido nos últimos anos. “O cheiro ruim voltou e há mais lixo”, afirma Gustavo Veronesi, coordenador da Ong SOS Mata Atlântica. “O Pinheiros havia melhorado e piorou novamente.” Além de ser visível a olho nu, a piora das condições é quantificada por medições técnicas. Os dados da Cetesb, o órgão estadual de São Paulo responsável por fiscalizar a poluição, comprovam o retrocesso. Um dos indicadores mais importantes é a demanda bioquímica de oxigênio (DBO), que mede quanto oxigênio é consumido pelos micróbios para digerir o material orgânico presente na água — quanto maior ela for, pior é a qualidade. Em 2025, a DBO média foi de 122 miligramas por litro no ponto em que o Pinheiros deságua no Tietê, o principal rio da cidade. Para se ter uma ideia, um curso de água é considerado péssimo quando a medição é de 29 miligramas por litro. Com isso, o Pinheiros encontra-se hoje em pior condição do que a de 2018, antes do início da revitalização. Entre 2019 e 2022, durante a gestão Doria, a média de DBO por ano foi de 47, ante 58 do período anterior. O sucessor de Doria no governo estadual, Tarcísio de Freitas, que está em campanha à reeleição, deixou a média aumentar para 65, o pior resultado dos últimos dez anos. “A situação é muito complicada”, diz Marta Marcondes, coordenadora do Projeto IPH, que monitora a poluição no rio desde 2010. “O esgoto in natura continua sendo despejado lá.”

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Ator principal na tentativa de revitalização do rio, a Sabesp começou os trabalhos quando era ainda uma estatal. Privatizada em 2024, segue sendo responsável pela parte principal do projeto. Segundo especialistas, a empresa visivelmente desacelerou o ritmo dos trabalhos de manutenção no Pinheiros, fundamentais para garantir a continuidade da melhora das condições do local. Com a deterioração das redes instaladas nos leitos dos córregos, o esgoto bruto voltou a vazar para as águas. “Essas redes precisam de cuidado constante”, diz Amauri Pollachi, coordenador do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento e vice-presidente do Comitê Gestor da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê. “A manutenção foi abandonada.”

A Sabesp nega que negligencie reparos e afirma que ampliou o número de prestadores de serviço nos últimos anos. “Somos cobrados por isso, porque impacta nos índices de qualidade que baseiam a remuneração”, diz Samanta Souza, vice-presidente de relações institucionais da companhia. Segundo ela, é preciso que outros atores cumpram sua parte para revitalizar os rios, como as prefeituras — responsáveis pela limpeza urbana — e a SP Águas, agência recém-criada para gerir os recursos hídricos do estado e responsável pelo desassoreamento dos rios. Já o governo paulista pede tempo para que as ações surtam efeito. “A qualidade do rio não vai melhorar do dia para a noite, mas as obras estão andando”, afirma Natália Resende, secretária de Meio Ambiente e Infraestrutura. Sobre a piora verificada nos últimos anos, fato comprovado pelos dados oficiais do governo do qual a secretária faz parte, nenhuma palavra.

arte rio Pinheiros

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Um fator que contribuiu de forma inegável para o retrocesso é o vício dos governantes brasileiros de interromper os projetos de seus antecessores. Apesar de avanços importantes de sua gestão em áreas como a da infraestrutura, Tarcísio de Freitas parece estar repetindo o erro. Logo depois de assumir o Palácio dos Bandeirantes, ele lançou em 2023 o Integra Tietê, projeto ainda mais ambicioso e custoso de recuperação do curso de água do mesmo nome. O Tietê nasce na Serra do Mar e percorre 22 quilômetros dentro da metrópole. Desde a década de 90 vários governadores tentaram trazê-lo de volta à vida. Houve algumas melhoras, também à base de investimentos maciços em saneamento básico, mas a situação segue bastante crítica. É louvável que Tarcísio tente resolver o caso, mas o problema é que isso virou prioridade, em detrimento do outro rio. O Pinheiros passou a ser tratado como um coadjuvante nos esforços de despoluição dos rios da capital paulista. “A ênfase passou a ser o Tietê”, diz uma fonte próxima ao Palácio dos Bandeirantes. “A avaliação era que a limpeza do Pinheiros estava adiantada e, por isso, ele ficou em segundo plano.” O governo, obviamente, nega o abandono.

INVESTIMENTO - Sabesp: a companhia criou cinco novas estações de tratamento
INVESTIMENTO - Sabesp: a companhia criou cinco novas estações de tratamento (./Divulgação)

Limpar rios que cortam grandes cidades é uma tarefa complexa, mas não impossível. O Rio Sena é um exemplo. Quando Paris foi escolhida, em 2017, para sediar a Olimpíada de 2024, os franceses colocaram em marcha o ambicioso plano de despoluí-lo para que recebesse as provas aquáticas. Os investimentos de 1,4 bilhão de euros (cerca de 8,1 bilhões de reais pelo câmbio atual) envolveram a ligação à rede de esgoto das péniches, as charmosas casas flutuantes, a ampliação das estações de tratamento e a construção de um megarreservatório de águas pluviais com capacidade para 50 milhões de litros — o equivalente a vinte piscinas olímpicas. Todo o esforço culminou no mergulho da então prefeita de Paris, Anne Hidalgo, no Sena, em julho de 2024, para provar que o rio estava limpo, algo que o cancelamento de algumas provas e o mal-estar de alguns atletas após nadarem ali durante a Olimpíada mostraram não ser totalmente verdadeiro.

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RESGATE - Banhistas no Rio Sena, em Paris: a limpeza custou 1,4 bilhão de euros
RESGATE - Banhistas no Rio Sena, em Paris: a limpeza custou 1,4 bilhão de euros (Tom Nicholson/Getty Images)

De qualquer modo, o trabalho de despoluição continuou. Em julho de 2025, o Sena foi reaberto para banhistas após 100 anos de interdição. Hoje, seu DBO médio é de 8 mg/l, considerado excelente pelos especialistas. O contraste com São Paulo é inevitável. Enquanto Paris insistiu no projeto mesmo após críticas, atrasos e constrangimentos públicos, o governo paulista parece oscilar entre anúncios grandiosos e a dificuldade crônica de manter aquilo que já foi feito. “São Paulo merece ter o seu rio limpo”, diz o ex-governador João Doria. O resultado do ritmo interrompido de recuperação: o Pinheiros segue correndo pela maior metrópole do país malcheiroso e com lixo boiando em várias partes do seu curso.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994



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