Uma técnica em segurança do trabalho denunciou ter sofrido assédio sexual por um médico dentro da empresa Grupo Interativa Facilities Ltda, localizada no Núcleo Bandeirante (DF). A mulher afirma ter sido demitida um mês após comunicar o caso aos superiores e ao canal de compliance da companhia.
Segundo relato da trabalhadora à coluna, o episódio ocorreu em junho de 2024, durante uma reunião profissional para apuração de um acidente de trabalho. De acordo com ela, o médico do trabalho da empresa a chamou para o consultório sob o justificativa de discutir a investigação de um caso.
“Quando eu cheguei na sala dele, ele tentou me beijar. Eu fiquei completamente sem ação. A única reação que eu tive foi sair daquele ambiente”, contou.
A vítima afirma que o médico segurou seu rosto e tentou beijá-la. Após o ocorrido, ela comunicou imediatamente a gestora responsável. O profissional admitiu o ato, mas alegou que apenas queria “fazer um carinho”.
“Eu falei que ele deveria fazer carinho na esposa dele, porque aquilo era um ambiente de trabalho e eu prezava pela minha privacidade”, relatou a trabalhadora, que também informou ser lésbica assumida.
De acordo com a denúncia, dois dias após o episódio, a coordenadora pediu para que ela não comentasse o caso com outros funcionários da empresa.
A técnica afirma que levou o caso ao compliance da empresa e aguardava uma resposta institucional sobre a denúncia. No entanto, um mês depois do episódio, foi desligada da companhia.
“Eu sofri um assédio sexual dentro do ambiente de trabalho e a solução mais viável que a empresa achou foi desligar a vítima”, disse.
Segundo ela, a justificativa apresentada para a demissão foi “questão comportamental”, apesar de nunca ter recebido advertências ou reclamações formais durante os mais de três anos em que trabalhou na empresa.
Enquanto isso, o médico citado na denúncia permaneceu atuando normalmente na companhia.
Ação judicial
A trabalhadora entrou com ação na Justiça do Trabalho contra a empresa. O processo teve decisões favoráveis à vítima em primeira e segunda instâncias, reconhecendo irregularidades no caso e condenando a empresa.
“Não é uma questão de dinheiro. O valor recebido é irrisório perto de tudo o que aconteceu. O importante é saber que a Justiça reconheceu o que eu vivi”, afirmou.
Além da ação trabalhista, a técnica registrou boletim de ocorrência contra o médico. O documento foi encaminhado à 11ª Delegacia de Polícia para apuração.
O procedimento, no entanto, acabou arquivado por falta de elementos conclusivos. Segundo a vítima, o médico não compareceu pessoalmente para prestar depoimento e foi representado por advogado durante o andamento do caso.
“Os casos de assédio são muito difíceis de provar. A gente passa por uma revitimização enorme. Precisei repetir a história diversas vezes dentro da empresa, na delegacia e no processo”, relatou.
Ela também afirma que testemunhas tiveram medo de apoiá-la por receio de sofrer represálias ou perder o emprego.
“Tenho certeza de que eu não fui a primeira e nem serei a última mulher a passar por isso. A gente não pode se calar diante desses casos. Eu não conseguia dormir. A gente começa a se perguntar se fez alguma coisa errada. É muito difícil”, disse.
Segundo a profissional, o caso expõe justamente uma contradição dentro da área em que atuava. “A gente trabalha combatendo assédio e cuidando da saúde do trabalhador. E mesmo sendo da área técnica, fui vítima e depois punida por denunciar”, afirmou.
A coluna tentou contato com o Grupo Interativa Facilities Ltda para comentar as denúncias, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.