Nesta quinta-feira (7), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ordenou o recolhimento de detergentes, lava-roupas líquidos e desinfetantes da marca Ypê pertencentes a todos os lotes cuja numeração termina em 1. A medida também prevê a interrupção da fabricação, venda, distribuição e utilização desses produtos.

Embora a Anvisa ainda não tenha divulgado oficialmente qual microrganismo motivou a ação, especialistas explicam que casos de contaminação microbiológica em produtos industriais exigem atenção imediata devido aos riscos à saúde e à dificuldade de eliminação de algumas bactérias do ambiente fabril.

O pesquisador Nilton Lincopan, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, explicou à CNN Brasil que microrganismos estão presentes em praticamente todos os ambientes.

“Os microrganismos existem em todos os lugares: na água, em superfícies, em objetos e até no corpo humano. O problema acontece quando há multiplicação excessiva ou quando eles contaminam produtos que precisam atender padrões rigorosos de segurança”, afirma.

Segundo o pesquisador, produtos destinados ao consumo ou ao contato humano passam por controle microbiológico justamente para evitar riscos sanitários. “Quando a cultura microbiológica apresenta crescimento bacteriano acima do permitido, significa que o produto está contaminado e não pode ser comercializado”, explica.

Lincopan destaca que o controle da carga bacteriana é uma exigência regulatória em diferentes setores industriais, especialmente nas áreas de alimentos, cosméticos, saneantes e medicamentos. “Existem limites máximos permitidos de bactérias. Quando esses limites são ultrapassados, o produto é considerado impróprio porque pode representar risco à saúde ou perder sua estabilidade”, diz.

Entre as bactérias frequentemente associadas a contaminações industriais está a Pseudomonas aeruginosa, um microrganismo considerado ubíquo — ou seja, presente em praticamente todos os lugares, especialmente em ambientes úmidos e aquáticos.

“A Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria oportunista. Ela pode ser encontrada em água, piscinas, torneiras e sistemas de abastecimento. Em pessoas saudáveis, pequenas quantidades normalmente não causam problemas, mas em indivíduos imunossuprimidos ou em contato com produtos contaminados, ela pode provocar infecções”, afirma o pesquisador.

A bactéria é conhecida pela capacidade de formar biofilmes, estruturas viscosas que aderem a tubulações, reservatórios e equipamentos industriais. Essa característica dificulta a eliminação do microrganismo mesmo após processos de limpeza e desinfecção.

“Quando a Pseudomonas aeruginosa contamina um sistema industrial, o problema pode ser muito sério porque ela forma biofilme, uma espécie de limo bacteriano extremamente resistente. Em alguns casos, a única solução é substituir completamente tubulações e sistemas de abastecimento de água”, explica Lincopan.

O pesquisador ressalta que o risco varia conforme o tipo de produto contaminado. Em produtos tópicos, cosméticos e medicamentos, a presença da bactéria é considerada especialmente preocupante. “Já houve casos de colírios contaminados por Pseudomonas aeruginosa, e isso representa um risco grave porque o produto é aplicado diretamente nos olhos”, afirma.

Segundo ele, pessoas com imunidade comprometida, pacientes em tratamento contra câncer, diabéticos, idosos e recém-nascidos são mais vulneráveis às infecções causadas por bactérias oportunistas.

A Anvisa orienta os consumidores a interromper imediatamente o uso dos produtos afetados e seguir as orientações oficiais divulgadas pela agência e pela fabricante. Até o momento, não há informações sobre registros de intoxicação ou infecção relacionados aos produtos recolhidos.



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