Mais de 160 artistas independentes organizaram um movimento em protesto contra a falta de oportunidades para se apresentar na Virada Cultural, evento promovido pela Prefeitura de São Paulo desde 2005. Segundo o grupo, além da dificuldade do processo de inscrição, a gestão municipal não é transparente com os critérios de seleção.

Criador do Movimento dos Sem Palco, o compositor e escritor Walter Egea (foto de capa) coordena uma escola de música e há oito anos tenta participar do evento. “O que a gente percebe é que são poucos artistas tendo muito palco e uma gama enorme de artistas sem palco nenhum”, disse ao Metrópoles.

Walter Egea, músico e escritor
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Walter Egea, músico e escritor

Arquivo pessoal

Walter Egea criou grupo de artistas para contestar falta de oportnidades
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Walter Egea criou grupo de artistas para contestar falta de oportnidades

Arquivo pessoal

Cantora Monica Albuquerque
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Cantora Monica Albuquerque

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Segundo Walter, mesmo atendendo a todas as solicitações feitas pelo edital do evento, com envio de documentos que “nosso contador nunca viu na vida”, o resultado foi, mais uma vez, a falta de respostas. “Quando eu terminei de fazer a inscrição, eu me senti um idiota. Você não recebe nenhum protocolo. Você fica sabendo que não foi selecionado quando a Secretaria de Cultura divulga a programação”, lamentou.

Para o músico, o contraste fica ainda maior quando se considera o valor destinado pela prefeitura para shows de artistas renomados. Na última edição da Virada, os dez maiores cachês pagos pela gestão Ricardo Nunes (MDB) somaram aproximadamente R$ 4,8 milhões — no total, 54 artistas receberam cachês superiores a R$ 100 mil.

“No ano passado, a Secretaria de Cultura aplicou valores absurdos para a realidade cultural de São Paulo. A gente está participando de um sistema viciado, monopolizado por produtoras de grande porte”, afirmou Walter.

As tentativas frustradas ao longo dos anos fizeram com que a cantora Monica Albuquerque desistisse de se inscrever nas próximas edições. “Acabei cansando. A gente não tem clareza sobre os critérios de seleção, nunca ficou sabendo quem conseguiu”, contou ao Metrópoles.

Conciliando a música com o trabalho de professora de biologia em uma escola pública, a artista lamentou a falta de clareza sobre o que é valorizado pela prefeitura nas propostas artísticas. “A gente precisa de um suporte de produção. Muitas vezes o custo disso para nós é alto. Os artistas que já têm esse suporte, que estão na mídia, acabam ganhando os melhores palcos, os melhores projetos”, afirmou.

Questionamentos

O advogado Rogério Pardini, que representa o Movimento dos Sem Palco, disse ao Metrópoles que os músicos protocolaram documentos na Secretaria de Cultura que questionam os critérios das escolhas dos artistas, mas não tiveram respostas.

“Os músicos estão sendo preteridos em razão de outros. Embora a prefeitura tenha o poder de decidir quem eles vão contratar ou não, o que não fica claro são as regras, as diretrizes dessas escolhas. Isso é um princípio do poder público, que tudo tem que ser bem transparente”, afirmou.

Pardini contou que o movimento pretende levar o tema ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) para cobrar explicações da gestão municipal. “O questionamento é para que a prefeitura explique o que está acontecendo, quais foram os critérios, por que existem artistas com cachês elevadíssimos e outros profissionais que não são nem convidados ou contratados para tocar. Porque, se é cultura, todo mundo tem que ter acesso. É uma situação democrática e não pode ter só preferência para artistas famosos.”

O que diz a prefeitura

Procurada, a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa informou que foram mais de 5 mil submissões de propostas artísticas para a Virada Cultural, via Porta de Entrada, plataforma de inscrições da prefeitura. “Destas, 109 foram contratadas, o que representa ao menos 25% dos contratados para o evento.”

A gestão disse que o chamamento informa que o envio das propostas não está condicionado à contratação. “Os artistas que encaminharam seus projetos seguem cadastrados na plataforma Porta de Entrada para contratações futuras. A curadoria de programação artística da Virada Cultural considera os artistas locais, por territórios, assim como pedidos dos munícipes e pesquisas nos distritos”, completou.



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