As conversas entre Lula e Donald Trump não têm produzido efeitos concretos para proteger o Brasil de novas tarifas americanas. Essa é a avaliação do diretor de jornalismo da CNN em Brasília Daniel Rittner, que analisou o encontro mais recente entre os dois líderes e destacou que a reunião teve impactos distintos a depender da perspectiva pela qual é observada.

“Tem duas vertentes nessa reunião de hoje. Para o Lula candidato, foi uma excelente reunião. Para o Lula presidente, que negocia tarifas, foi relativamente indiferente”, afirmou Rittner, em participação no WW desta quinta-feira (7).

Do ponto de vista eleitoral, Rittner identificou duas preocupações centrais que motivaram a aproximação com a Casa Branca. A primeira diz respeito ao temor de algum tipo de interferência do governo americano nas eleições brasileiras, seja pelo não reconhecimento de resultados ou pelo apoio a Flávio Bolsonaro na campanha.

“Você ter um canal bom de diálogo e uma amizade, reforçar a boa química com a Casa Branca, no fundo significa que Trump pode ficar tranquilo. Se Lula vencer, ele tem, se não exatamente um aliado, um cara que ele gosta aqui no Brasil”, observou.

A segunda envolve o valor simbólico da imagem: “A fotografia vale muito”, disse Rittner, explicando que ela permite ao Palácio do Planalto entrar na disputa pela reeleição com a narrativa de que Lula tem acesso e resolve problemas onde outros falham. “Eu sou um ator global, eu passo três horas na Casa Branca. Essa é a mensagem do Lula candidato”, resumiu o analista.

No campo das negociações comerciais, o panorama é menos favorável. Estimativas da consultoria Eurasia apontam que o Brasil pode enfrentar tarifas entre 25% e 30%. Rittner explicou que muitos especialistas indicam que o patamar final ficará acima dos 10% aplicados de forma geral, mas abaixo dos 50% cogitados anteriormente.

Há ainda uma investigação da Seção 301 que abrange 56 países, incluindo China, União Europeia e Japão, o que coloca o Brasil em um contexto multilateral de pressão tarifária.

Segundo Rittner, já são cerca de seis ou sete contatos entre os dois líderes, entre encontros pessoais e ligações telefônicas. Ele comparou o padrão dos encontros à história de um prefeito que queria “ir para a Lua” e era respondido com pedidos de mais detalhes e novos prazos, como uma forma de ganhar tempo sem dizer não diretamente.

“A conversa de Lula com Trump tem sido sempre assim: daqui a 30 dias a gente conversa, daqui a 30 dias os ministros se reúnem. E isso não tem surtido efeitos concretos para blindar o Brasil de mais tarifas”, conclui.



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