
Correr uma maratona já exige bastante do corpo. Completar uma ultramaratona, muitas vezes atravessando a neve ou encarando temperaturas extremas, leva o organismo ao limite. Mas um novo estudo sugere que parte dessa capacidade pode começar a ser definida ainda na vida fetal.
Pesquisadores da University of Victoria e de outras instituições identificaram que o peso ao nascer influencia a resposta dos rins ao exercício extremo na vida adulta. Segundo o trabalho, publicado na revista Frontiers in Ecology and Evolution, pessoas que nasceram com peso muito baixo ou muito alto apresentaram maior risco de sofrer alterações renais após provas de ultramaratona.
O estudo acompanhou 44 atletas que participaram de corridas de resistência em dois cenários: uma prova no frio da Lapônia finlandesa e outra sob calor intenso no sul da Espanha. Antes e depois das competições, os pesquisadores analisaram os níveis de creatinina, substância usada como marcador da função renal.
Resultados
O resultado aponta que atletas nascidos com pesos considerados intermediários tiveram menor aumento da creatinina após as provas. Já aqueles que nasceram abaixo de 2,5 kg ou em faixas mais altas de peso apresentaram maior sobrecarga nos rins.
O ponto considerado “ideal” no estudo ficou em torno de 3,8 kg ao nascer. A explicação, segundo os autores, pode estar na formação dos rins ainda durante a gestação. É nesse período que se desenvolvem os néfrons, estruturas responsáveis pela filtragem do sangue.
Pessoas com baixo peso ao nascer tendem a formar menos néfrons, o que reduz a chamada “reserva funcional renal”, uma espécie de margem de segurança que permite ao órgão lidar com situações de estresse intenso, como exercícios prolongados, desidratação ou calor extremo.
Os autores também observaram que a hidratação teve papel importante. Na corrida disputada no calor, mais de um terço dos atletas perdeu acima de 5% do peso corporal durante a prova, um sinal de desidratação. Esse grupo apresentou alterações renais mais intensas.
Limitações
Os próprios autores destacam que os resultados devem ser interpretados com cautela. O estudo envolveu apenas 44 ultramaratonistas, um grupo pequeno e bastante específico, em sua maioria descendentes de europeus.
Além disso, o peso ao nascer foi informado pelos próprios participantes, o que pode gerar imprecisões. Os pesquisadores tentaram minimizar esse problema pedindo que os atletas confirmassem as informações com familiares antes das provas, mas reconhecem que ainda existe margem para erro.
Outro ponto importante é que o trabalho não teve acesso a dados sobre idade gestacional, obesidade materna ou diabetes na gravidez – fatores que também podem influenciar tanto o peso ao nascer quanto o desenvolvimento dos rins.
Os autores também lembram que ultramaratonistas representam uma população altamente selecionada. Pessoas com condições físicas menos favoráveis podem sequer chegar a competir nesse tipo de prova, o que pode reduzir a presença de indivíduos com pesos muito baixos ou muito altos ao nascer na amostra analisada.
Apesar disso, o estudo deixa pistas sobre como a vida gestacional pode repercutir na saúde – algo que vale ser confirmado por mais e maiores estudos.