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Algumas imagens e poucos minutos de vídeo são suficientes para que, em poucos minutos, alguém crie uma versão sua na internet usando ferramentas de inteligência artificial. Se fazem isso depois da morte da pessoa, é uma espécie de ressureição digital. Que tal, hein?
Tem quem ache a ideia instigante, tem quem se benza de horror.
Controvérsias à parte, é fato que a ideia de “entrar para a posteridade” está entre as muitas coisas que a chegada das IAs transformou. Tanto que existe até especialista em ressureição digital, como o advogado paranaense Gustavo Fortunato D’Amico.
Autor do livro Ressurreição Digital: Aspectos Jurídicos e Repercussões, ele conversou comigo sobre o tema. Adorei o papo, e acho que você vai curtir também.
VEJA: O que é exatamente ressurreição digital?
Gustavo Fortunato D’Amico: É a técnica que utiliza ferramentas tecnológicas, especialmente a inteligência artificial, para recriar elementos da personalidade de pessoas falecidas.
Quando isso começou a acontecer de verdade? Quais foram os primeiros casos?
Apesar de ter ganhado força nos últimos anos, os primeiros estudos datam dos anos 1980. Mas um grande marco ocorreu em 2012, com a apresentação de Tupac no Coachella. Era uma recriação do artista, morto em 1996.
Como uma IA consegue fazer isso?
A IA recria analisando fotos e vídeos existentes para aprender seus padrões faciais e, a partir deles, gerar novas imagens ou movimentos simulados. E não exige muitos recursos! Vídeos ou áudios curtos já são capazes de fornecer as métricas de que o sistema precisa.
A imagem de alguns famosos continua a render muito dinheiro mesmo depois da morte.
Existe um mercado em torno de celebridades falecidas. A Forbes, por exemplo, publica anualmente um ranking das que mais faturam – em 2025, Michael Jackson liderou a lista.
E não são apenas celebridades que podem ser ressuscitadas digitalmente, certo?
Não, qualquer pessoa pode ser recriada, e esse é um dos aspectos mais preocupantes do tema, frequentemente ignorado nos debates sobre o assunto.
Quem decide se um artista morto vai aparecer num filme ou anúncio?
Esse é um dos pontos mais complexos do tema, pois depende da legislação de cada país. Na prática, observa-se que a família costuma tomar essas decisões. No entanto, no Brasil, essa pode não ser a forma mais adequada.
E quando ninguém pede autorização, isso já aconteceu?
Infelizmente, isso acontece com frequência, principalmente nas redes sociais. As pessoas tendem a usar a tecnologia de forma recreativa, porém isso abre margem para processos e indenizações. A imagem não é algo que caia em domínio público.

O Brasil tem lei para regular isso?
Atualmente, os elementos da personalidade são regidos pelo Código Civil; porém, a forma como isso foi estabelecido ainda foi pensada para o mundo analógico. Sendo assim, há lacunas que tornam a ressurreição digital um território muito instável.
Qual é sua opinião sobre casos brasileiros, como o do uso de imagem de Elis Regina num comercial da Volkswagen (ainda que com autorização dos herdeiros)?
Acho que casos como o da Elis Regina mostram que essa tecnologia já faz parte da realidade. Mesmo com autorização dos herdeiros, eles levantam um debate importante sobre a necessidade de regras mais claras, para evitar a hiperexploração e a banalização da imagem.
O que um artista pode fazer hoje para proteger sua imagem depois da morte?
Hoje, cabe ao artista planejar o que deseja que seja feito com sua imagem após a morte. Muitos já deixam em testamentos ou outros documentos se permitem esse tipo de uso e de que forma ele pode acontecer.
O mesmo vale para pessoas comuns, imagino.
O direito de personalidade vale para ambos. Por isso, os cuidados devem ser os mesmos, como deixar documentado o que se deseja que seja feito.
Onde você acha que isso vai chegar nos próximos anos?
Acompanho esse tema desde 2016 e o que observo é que as pessoas têm aceitado cada vez mais a recriação digital, inclusive de pessoas falecidas. Por isso, acredito que essa tecnologia tende a se tornar cada vez mais comum, não só no entretenimento, mas também no nosso cotidiano. O desafio agora é garantir que seu uso não cause danos aos falecidos nem aos que ficam.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, professor de pós-graduação e palestrante