O TSE nos apresentou ao boneco Pilili, criação de uma agência de propaganda de Santo André com a qual o tribunal mantém um contrato de R$ 6 milhões por ano, segundo informa o jornalista André Shalders.

O objeto do contrato é a “prestação de serviços de publicidade (…), bem como a distribuição de ações publicitárias do contratante (TSE) junto a públicos de interesse”.

Por que o TSE precisa de serviços de publicidade, alguém poderia me dizer? As únicas funções do tribunal são organizar eleições e julgar questões eleitorais. Além dessas funções, já se adentra o terreno do desvio de finalidade.

Não cabe ao TSE fazer propaganda da democracia, porque democracia que se preza não precisa de slogans, filmetes ou bonecos bolados por agências, a peso de ouro público, para apregoar a sua virtude.

A virtude de uma democracia que se preza é percebida no dia a dia por meio do pleno exercício das liberdades e dos direitos garantidos aos cidadãos pela Constituição — liberdades e direitos que vêm sendo solapados pelo Poder Judiciário, do qual o TSE faz parte, nas esferas das manifestações políticas e das prerrogativas legislativas.

É quando se coíbe o exercício das liberdades e dos direitos constitucionais, como vem ocorrendo nos últimos anos, é que se torna preciso dourar a situação com filmetes, slogans e bonecos.

O boneco Pilili foi criado para tentar anular a demonização das urnas eletrônicas promovida pelos bolsonaristas, além de suavizar a imagem autoritária projetada pelo próprio TSE.

Como ideia é ruim, para não falar da concepção tosca e da onomatopeia de ressonâncias intestinais, porque se baseia em outro boneco, o Zé Gotinha, idealizado para aumentar a adesão à vacinação contra a poliomielite e demais doenças infantis, em um país ainda obscurecido pela ignorância e cheio de urgências sanitárias.

Os contratantes do TSE devem ter achado genial a referência nem tão velada assim ao Zé Gotinha, uma vez que os bolsonaristas têm, desde a epidemia de Covid, outro cavalo de batalha na obrigatoriedade vacinal.

Não há nada de genial, porém, em tomar emprestado um conceito nascido de necessidades absolutamente diferentes e infantilizar eleitores que precisam confiar integralmente no método de votação digital.

A confiança dos brasileiros nas urnas eletrônicas não tem de ser emocional, empática, mas racional, institucional, assim como deveria ser a escolha dos seus representantes.

Na sua inadequação como peça de propaganda, o Pilili é uma vergonha perpetrada pelo TSE. Reproduz a forma como os próprios políticos conduzem as suas campanhas e tratam a massa de eleitores: com desprezo, condescendência, apelação.

A inteligência dos brasileiros vem sendo continuamente subestimada, e é doloroso constatar que eles acabam fazendo por merecer esse tratamento. Mas não é porque funciona que está certo.



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