Para ficar numa metáfora conhecida, existem mais imprensas no Brasil do que queijos na França. Ou do que vermes por aqui mesmo, para aludir ao formidável “O Queijo e os Vermes”, de Carlo Ginzburg. Ah, é tão fascinante como obrigatório: por fascinante, eu os convido à leitura. O “obrigatório” vem depois. E se Deus estiver numa fermentação do leite? Quem conhece com certeza o caminho da salvação? E olhem que quem indaga é este papa-hóstia. E se o Deus verdadeiro for o de uma tribo primitiva da Polinésia, como num esquete de humor de “Porta dos Fundos”? Católicos, como sou e os entendo, têm de ser tolerantes com o debate, desde que se preserve a Santa Madre… Voltemos ao ponto.

A pesquisa Real Time Big Data que registrou mais um empate entre Lula e Flávio — e ainda acho que o presidente será reeleito — também mediu o prestígio de instituições. A coisa está feia para todo mundo — um pouco menos para as Forças Armadas. Mas juro que você, inimigo do Supremo, não deveria comemorar. Nós, da imprensa, não estamos em posição cômoda para vergastar o tribunal dia sim, dia também. Veremos.

Comecemos pelo patinho mais feio de todos, de nadar desengonçado, atrapalhado, com plumagem que parece fazê-lo de outra espécie: é o Congresso. A desconfiança é brutal: 62% a 32%. Qualquer um com um desempenho como esse poderia dizer: “Temos de repensar nossas práticas”. Não vai acontecer. Como um grande poeta escreveu, talvez até repitam: “Final força é pisar com violência”. Ou alguém imagina que os patriotas abrirão mão de seus, arredondando, R$ 60 bilhões por ano em emendas?

Depois vem o Supremo, a Geni do Brasil, de que o jornalismo pretende ser a voz do povo na música de Chico, sempre temendo que chegue o comandante do Zeppelin para salvá-lo: “Joga pedra, joga bosta, ele é feito pra apanhar, ele é feito pra cuspir. Maldito STF”. O difamação é eficiente: 55% afirmam não confiar na Corte; contra 36% que confiam.

“Muito justo”, dirá o caçador e “cassador” de ministros. Com ar sapiente, pontifica: “Também, quem manda? Estamos aqui com um mandato da sociedade para vergastar todos os dias os magistrados. E vejam como a sociedade está com a gente…”

Está mesmo? A reprovação/aprovação da imprensa empata com as respectivas do Supremo na margem de erro: 52% a 40%. Antes que você, jornalista, meu “hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão!”, estime que eu vá escrever que nossa profissão precisa de um Edson Fachin para cobrar mais um Código de Ética, lembro que eu mesmo apontei que há mais imprensas do que queijos e do que vermes.

Como se nota, o “Zeitgeist”, o espírito do tempo, no entanto, não nos é favorável. Se o tribunal sempre tem alguém a lhe chicotear a honra e que nada sabe, por exemplo, de “controle abstrato de constitucionalidade e preservação do estado de direito”, nós, os escribas, temos as redes sociais que ignoram o nosso ofício e estão prontas apenas a nos odiar — e só raramente por bons motivos.

Se pesquisa de opinião fosse aferição de qualidade do trabalho, bem, estaríamos em maus lençóis ou repousando em clichês ainda piores. E olhem que o Tribunal tem quase a obrigação de ser contramajoritário. O jornalismo, infelizmente, busca quase sempre ser majoritário. Em tempos de redes sociais, até isso se tornou impossível porque a barbárie toma o lugar de qualquer resquício de racionalidade, mesmo a cínica.

Ah, sim: as Forças Armadas estão em melhor situação: a confiança (48%) ainda é maior do que a desconfiança: 44%. Anda-se por aí a confiar mais em que tem canhões do que em quem tem direito a voto, lentes ou teclado.

“Ah, nós, da imprensa, não temos nada com isso…” Não ignoro a estupidez das redes e sou bom leitor de Umberto Eco — acho que entre os melhores, e topo até desafios. O ponto é outro: talvez não estejamos sabendo defender o nosso próprio ofício, que consiste, entre outras coisas, em combater linchamentos.

À medida que a profissão também se enche de linchadores, convenham, acaba se expondo a linchamentos porque consagra o método como forma aceitável de expressão política. Quando as armas se sobrepõem às lentes e ao teclado, não se está, apenas, diante de uma vitória das armas, mas também diante da falência das lentes e do teclado. Em “Além do Bem e do Mal”, um livro de Nietzsche que tem lá os seus problemas (como ele próprio), pontificou o Bigodudo: “Aquele que luta contra monstros deve tomar cuidado para não se tornar também um monstro. Se você olhar muito tempo para o abismo, o abismo acaba olhando para você”.



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