
Quem é o agressor agora? No balé da guerra e da paz, os papéis estão invertidos. Donald Trump, no comando de um poderio bélico imbatível, “não quer briga”, nas palavras do secretário da Defesa, Pete Hegseth. Suspendeu a operação de escolta de cargueiros paralisados no Estreito de Ormuz e anunciou “grandes progressos” em negociações para o fim da guerra. Em condições extremamente negativas, os radicais que estão tomando as decisões no Irã não sofreram represálias pelos ataques repetidos contra os Emirados Árabes Unidos e comemoraram o “fracasso” dos Estados Unidos na operação de escolta.
Os radicais estão celebrando. Segundo o site oposicionista Iran International, os ataques “gratuitos” contra o vizinho árabe foram tão absurdos que o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, se revoltou contra o que chamou de “loucura” e confrontou a liderança dos Guardas da Revolução Islâmica.
O presidente manda pouco e os Guardas mandam muito, o que sugere que o Irã está sob um regime militar completo. A palavra final deveria ser do líder supremo, Mojtaba Khamenei, mas ele está gravemente ferido. Ressurgiram até os boatos de que são os radicais os responsáveis pelas declarações escritas de Khamenei. Também aumentou a boataria de que ele teria morrido.
As atitudes extremistas de seja quem for que esteja mandando contrastam com um Trump contido, muito mais disposto a fazer um acordo do que a retomar a guerra. Segundo analistas, ele optou pelo bloqueio à navegação iraniana pelo Estreito de Ormuz como uma forma de forçar uma saída negociada, sem voltar aos bombardeios. A suspensão da escolta dos cargueiros estrangeiros é uma espécie de declaração assinada de boa vontade. Note-se que são duas operações: a escolta, agora suspensa, e o bloqueio aos navios iranianos, mantido.
ALTA VOLATILIDADE
No papel, os Estados Unidos têm condições de manter o bloqueio indefinidamente, com alguns sobressaltos para a economia, mas nada muito grave. Trump só não pode fazer um acordo fraco que não elimine os riscos do programa nuclear bélico iraniano, o motivo principal da guerra. Ou pode, contanto que a opinião pública americana não interprete concessões como derrota ou humilhação. As declarações do secretário de Estado, Marco Rubio, de que os objetivos da guerra foram alcançados, apontam para um acordo fraco, mas seu chefe parece disposto a acabar logo com o assunto.
Seria péssimo para Trump se isso se refletisse numa perda da maioria republicana no Congresso, mas os Estados Unidos continuariam do mesmo tamanho e logo o assunto seria esquecido, exceto pelo previsível aumento das teses acadêmicas sobre o declínio do império americano.
Para os radicais iranianos, o jogo é muito mais pesado. A economia está arrasada, o petróleo não pode sair pelo mar, o desespero da população pode explodir a qualquer momento e sempre há candidatos a tomar o lugar dos que arrastam o país para a desgraça. Em compensação, eles estão vendo uma chance bem concreta de sobrevivência. Não se sabe ainda quais concessões fariam para selar um acordo.
Obviamente, a contenção de Trump pode acabar a qualquer momento. Note-se que o regime iraniano optou por atacar um inimigo que não revida, como os minúsculos emirados vizinhos, e não confrontar diretamente a Marinha americana. Nesse caso, o Trump bonzinho sumiria do mapa. É um momento de extrema volatilidade para a visita do presidente Lula da Silva, amanhã. Todos os resultados desses encontros são previamente combinados para não deixar espaço para surpresas, já está preparada a lista de acordos a serem assinados e os dois presidentes são profissionais, embora ambos dados a improvisações. Mas não deixa de ser uma visita num ambiente como poucas vezes se viu.