O impacto da combinação das apostas esportivas digitais, as “bets”, com as taxas de juros elevadas não está “apenas” reduzindo a capacidade de consumo das pessoas, mas corroendo o patrimônio das famílias brasileiras. Essa é a conclusão de um estudo realizado em parceria pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School.
A análise, observa o economista Claudio Felisoni, professor da FIA, mostra que o brasileiro médio não financia as apostas e paga juros “só cortando o café da manhã ou a ida ao cinema”. “As pessoas estão resgatando ativamente dinheiro da caderneta de poupança e de aplicações como CDBs”, diz. “Ou seja, elas queimam suas reservas financeiras de longo prazo. Há uma destruição ativa do patrimônio.”
Além disso, diz o estudo, boa parte dos recursos que sai do “colchão de segurança” das pessoas não volta para a economia real. “Se as pessoas tirassem dinheiro da poupança só para comprar comida, ele sairia da conta das famílias e iria para a conta do dono do supermercado”, aponta a análise.
Nesse caso, o “bolo” de recursos continuaria do mesmo tamanho. Não é isso o que se vê, porém. “Ele (o ‘bolo’) está diminuindo, o que indica que o dinheiro está saindo da economia produtiva”, afirma Felisoni. “O dinheiro sai dos bancos e é enviado para fora do sistema. Ele fica retido em instituições de pagamento ou é remetido para fora do país.”
O papel do Pix
O trabalho aponta que a drenagem de recursos da economia (promovido pelas bets) ocorreu de forma rápida, notadamente a partir de janeiro de 2023, momento em que houve a chamada “explosão” das apostas online no país. E ela se valeu do sucesso e das facilidades oferecidas pelo Pix, que criou um ecossistema de pagamentos com “zero atrito”, ao eliminar barreiras temporais e de custos para a realização das transferências.
“Esse é um ponto com o qual temos de ter cuidado”, diz o pesquisador. “Na verdade, não estamos criticando o Pix. Ele é ótimo e foi sua eficiência que facilitou a drenagem de recursos e a consequente corrosão do patrimônio.”
Empresas
As empresas, por sua vez, sofrem em duas frentes. Numa delas, como o dinheiro das famílias é drenado para apostas e juros, o comércio perde vendas. Sem entrada de caixa, as companhias são obrigadas a desidratar as suas posições em fundos de investimento institucionais para pagar as contas. Por outro lado, elas também têm de pagar juros elevados, num crédito corporativo com taxas altíssimas.
Felisoni observa que, nessa drenagem de recursos do “colchão financeiro” das famílias, as bets têm maior peso do que os juros altos. “O efeito das apostas nesse processo é pelo menos o dobro em relação às taxas de juros”, afirma.
Pandemia às avessas
O trabalho, contudo, não define qual é a magnitude desse ralo financeiro. Mas o estudo destaca que uma nota técnica do Banco Central (BC), de setembro de 2024, revelou que os beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 10,5 bilhões para plataformas de apostas via Pix, somente nos primeiros oito meses daquele ano.
O economista afirma que tal valor é similar ao da “injeção histórica de liquidez”, estimada em R$ 11,2 bilhões, promovida nas fases iniciais da pandemia de covid-19 no Brasil.