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O novo Desenrola chega com ambição ampliada — mais público, mais desconto e mais fôlego para renegociar dívidas —, mas reacende um velho debate: até que ponto estimular o consumo ajuda ou atrapalha a economia.
Mercado
Na leitura de economistas ouvidos no programa Mercado, há um ruído claro entre a estratégia do governo e o esforço do Banco Central para conter a inflação. Em outras palavras, enquanto um pisa no acelerador, o outro mantém o pé no freio.
Mais consumo
A economista Natalie Verndl, delegada do Corecon-SP, resume o incômodo com franqueza. “A gente tem um modelo de desenvolvimento aqui, ou melhor, de crescimento econômico, que ele é pautado exatamente nas questões de consumo”, afirma. Para ela, o país insiste em uma fórmula que já mostrou limites.
Governo tem que fazer o dever de casa
Natalie vai além ao criticar a condução fiscal: “o governo ele não retira os seus gastos, ele não deixa de gastar… ele não tem responsabilidade fiscal”. Na prática, diz, programas como o Desenrola funcionam como alívio momentâneo, mas não atacam o problema estrutural do endividamento.
Guerra lá e consumo aqui – piorou pro BC
Do outro lado, o impacto direto recai sobre a política monetária. O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, é direto ao ponto: “Vem o governo e coloca mais um potencial estímulo de consumo nesse momento. Então, é o pior cenário que a gente poderia ter do ponto de vista de controle da inflação”. Para ele, recursos usados no programa — como fundos garantidores e valores parados no sistema financeiro — poderiam ter outro destino, como a redução da dívida pública, com efeitos mais duradouros.
‘ Vai atrapalhar a vida do BC ‘
Esse desencontro entre política fiscal e monetária aparece de forma ainda mais clara quando se olha para as expectativas de inflação. Vale alerta que a chamada “desancoragem” — quando o mercado passa a projetar inflação acima da meta — já preocupa e deve tornar a queda dos juros “muito lenta e demorada”. E não é só isso: “vai atrapalhar a vida do Banco Central”, reforça, lembrando que a autoridade monetária já lida com pressões externas, como os choques nos preços do petróleo.
Novo desenrola
O desenho do Desenrola 2.0, por sua vez, é robusto. O programa mira quem ganha até cinco salários mínimos, com descontos médios de 65% que podem chegar a 90%, juros de 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 vezes. Há ainda o uso de até 20% do FGTS para quitar dívidas e o perdão de débitos bancários de até R$ 100. Uma novidade é o bloqueio do CPF em plataformas de apostas por um ano — tentativa de evitar que o alívio vire novo endividamento, em um cenário onde bilhões migraram do consumo para as bets.
Política e risco
No fim das contas, a fotografia que emerge é de curto prazo contra longo prazo. O governo aposta no alívio imediato e na reativação do consumo, inclusive com impacto político evidente. Já os economistas alertam para riscos recorrentes: efeito temporário, incentivo ao endividamento futuro e mais pressão inflacionária. Como resume Natalie, o cenário é “extremamente complicado pro Banco Central”, que pode ser obrigado a manter uma política de juros mais dura por mais tempo. E aí, o custo da conta acaba chegando — mais cedo ou mais tarde — para todos nós.