A noite do jantar dos correspondentes da Casa Branca se transformou em um dos momentos mais intensos da carreira da correspondente Mariana Janjácomo, conforme relatou durante o videocast Fora da Ordem, que vai ao ar ao vivo às sextas-feiras, a partir das 13h, no canal de YouTube da CNN Brasil e na TV aos domingos às 17h15. Enquanto se preparava para o evento de gala — já vestida com traje longo e salto alto —, ela recebeu uma mensagem de seu namorado, também jornalista, que estava no local: havia ocorrido um tiroteio a cerca de 10 metros dele.
A primeira reação de Mariana foi instintivamente jornalística. “Você viu o atirador? Você ouviu os tiros? Você tem certeza que foram tiros?”, ela perguntou ao namorado, antes de pensar em perguntar se ele estava bem. Em seguida, pegou o tripé e a mochila e foi em direção ao hotel onde o jantar estava acontecendo.
Vestido longo, salto e patinete elétrico
Ao chegar nas proximidades do hotel, Mariana encontrou ruas tomadas por viaturas policiais, sirenes, ambulâncias e bombeiros. A polícia abria um perímetro porque Donald Trump havia decidido encerrar o jantar e se dirigir à Casa Branca para uma coletiva de imprensa. “Eu tô aqui com salto, com vestido longo, tô com medo de tropeçar, então me perdoem se eu olhar pro chão, porque tá escuro”, disse ela durante a cobertura ao vivo, carregando o tripé com uma mão e o microfone na outra.
Enquanto transmitia do lado de fora, Mariana recebia mensagens de amigos que estavam dentro do hotel, escondidos debaixo das mesas e tentando fazer vídeos, mas sem conexão de internet suficiente. Com Trump anunciando uma coletiva em meia hora na Casa Branca e as ruas completamente bloqueadas, teve início o que ela chamou de “segundo pânico” dos jornalistas. “O primeiro foi o atirador. O segundo foi: não vou chegar a tempo da Casa Branca”, relatou. A solução encontrada por muitos profissionais foi pegar patinetes elétricos e bicicletas — jornalistas de smoking e mulheres de vestido longo e salto alto pedalando e patinando pelas ruas de Washington para cobrir a coletiva.
O silêncio da oposição e os ataques à imprensa
Durante o programa, antes de relatar os bastidores do atentado, Mariana havia descrito como é o cotidiano da cobertura na Casa Branca sob pressão constante. Segundo ela, Trump realiza ataques pessoais contra jornalistas — especialmente mulheres —, como quando chamou uma repórter de “pig” (porquinha) ou comentou o sotaque de uma colega francesa. Nesses momentos, os jornalistas da imprensa tradicional não rebatem na hora. “Só seguem perguntando e depois o que eu percebo é uma movimentação de apoio nas redes sociais”, explicou.
Mariana também chamou atenção para um fenômeno que observa neste segundo mandato: o silêncio da oposição. Segundo ela, ao contrário do primeiro mandato, quando havia protestos frequentes nas ruas, agora a resistência é muito mais discreta. “A oposição está muito mais quieta”, afirmou, descrevendo manifestações que, em sua avaliação, viraram festas — com fantasias infláveis, música e horário marcado para começar e terminar. Para ela, esse comportamento pode estar ligado a um sentimento de cansaço acumulado. “Isso acaba fazendo com que as pessoas estejam adormecidas, de uma certa forma, na oposição”, concluído.
Uma cobertura histórica processada aos poucos
Mariana admitiu que demorou para compreender a dimensão do que estava cobrindo naquela noite. “Você não percebe que você está cobrindo um atentado contra o presidente dos Estados Unidos”, disse. Segundo ela, a adrenalina do momento impede que o jornalista processe imediatamente a gravidade dos acontecimentos. Só depois, com a transmissão encerrada e a adrenalina baixando, é que a realidade se impõe. “Ah tá, eu acabei de cobrir uma tentativa de assassinato do presidente dos Estados Unidos”, relatou ter pensado. Apesar do choque, ela destacou que ficou muito grata por todos estarem bem ao final daquela noite.