Os cães convivem com os humanos há cerca de 15 mil anos e, nesse longo processo de domesticação, passaram por transformações importantes. Uma das mudanças mais marcantes foi a redução do tamanho do cérebro em relação aos lobos, seus ancestrais selvagens. Embora esse encolhimento seja conhecido pela ciência, ainda havia dúvidas sobre quando ele começou. Um novo estudo, publicado em abril na revista Royal Society Open Science, sugere que a redução cerebral não ocorreu nas fases iniciais da domesticação, mas milhares de anos depois, já no Neolítico Tardio.
O trabalho analisou crânios de canídeos antigos e modernos (grupo que inclui cães, lobos, chacais, coiotes e raposas). Para chegar aos resultados, pesquisadores europeus compararam tomografias computadorizadas de 22 lobos e cães pré-históricos, que viveram entre 35 mil e 5 mil anos atrás, com amostras de 104 cães e 59 lobos modernos.
Mudança não aparece nos “protocães”
Os pesquisadores usaram o volume do endocrânio — a cavidade interna do crânio que abriga o cérebro — como uma forma de estimar o tamanho cerebral dos animais. A análise mostrou que os chamados “protocães” do Pleistoceno, animais com características intermediárias entre lobos e cães, ainda não apresentavam redução cerebral em comparação com lobos da mesma época.

Um exemplar de Goyet, na Bélgica, com cerca de 35 mil anos, chegou a apresentar volume endocraniano relativo ligeiramente maior. Segundo os autores, esse dado pode sugerir maior flexibilidade comportamental na presença de humanos, embora não indique ainda o encolhimento cerebral associado à domesticação.
A diferença mais expressiva aparece nos cães do Neolítico Tardio, há cerca de 5 mil anos. Segundo o estudo, esses animais já apresentavam uma redução drástica do tamanho cerebral, estimada em 46%, com volumes comparáveis aos de raças modernas pequenas, como terriers pequenos e cães toy.
Para os autores, isso indica que a diminuição do cérebro dos cães não é apenas resultado da formação recente das raças modernas, intensificada nos últimos 200 anos por padrões estéticos e seleção artificial. A mudança já estava presente muito antes, em sociedades agrícolas antigas da Europa Ocidental.
Domesticação deixou marcas no cérebro
A redução cerebral é um dos efeitos mais discutidos da domesticação em mamíferos. Entre as explicações propostas estão a menor necessidade de lidar com predadores, buscar alimento sozinho ou disputar parceiros, além da seleção por animais mais dóceis e adaptados ao convívio humano.
No caso dos cães, essa redução é considerada uma das mais marcantes entre os animais domésticos. Estimativas anteriores apontavam uma diminuição média de 20% a 30% no tamanho do cérebro em relação aos lobos. Os pesquisadores destacam que, até agora, boa parte do conhecimento sobre o cérebro dos cães vinha da análise de animais modernos. O problema é que muitas raças atuais foram moldadas recentemente por cruzamentos seletivos, o que pode dificultar a compreensão das etapas mais antigas da domesticação.
Por isso, o estudo incluiu não apenas raças modernas, mas também lobos selvagens, dingos, cães de vilarejo e crânios arqueológicos. Os cães de vilarejo são populações de vida livre que vivem com pouca intervenção humana direta e representam grande parte da população global de cães.