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Prefeito de uma ilha decadente que tem um péssimo sinal de celular e nenhuma conexão wi-fi, Tom Loftis (Matthew Rhys) almeja tornar sua comunidade, Widow’s Bay, na costa atlântica dos Estados Unidos, um destino turístico atrativo à la Martha’s Vineyard — refúgio de férias de ricaços e políticos americanos. São muitos os obstáculos para cumprir esse objetivo. A começar pelas lendas sobrenaturais que rondam o pedaço, além das tragédias reais registradas nos noticiários e os habitantes deveras peculiares que colaboram com a fama de terra amaldiçoada da região. Tom insiste com os locais em que receber visitantes aquecerá a economia e proporcionará melhorias nas instalações precárias, datadas do século XVIII. Os moradores, porém, resistem: aquela é uma má ideia.
O desastre anunciado embala a viciante série O Segredo de Widow’s Bay, novidade da Apple TV, com dez episódios, que serão lançados semanalmente às quartas-feiras. Em um equilíbrio afiado entre o humor espontâneo e o horror sobrenatural, a produção faz parte de uma tendência apetitosa para os amantes do subgênero “terrir” — vertente que mistura sustos com momentos cômicos pontuais, como o sanguinolento Socorro! (2025), com Rachel McAdams, do diretor Sam Raimi, mestre do filão; e a franquia Pânico, que faz sucesso transitando entre o medo e o sarcasmo — e já conta com sete filmes lançados desde 1996.
Para convencer os munícipes de que os casos de canibalismo na época da fundação da ilha e o assassinato de garotinhas por um bicho-papão ficaram no passado, ou de que uma bruxa do mar e um palhaço assassino não passam de lendas urbanas, Tom, cético, aceita o desafio de dormir na única pousada de lá, que é, claro, mal-assombrada. O prefeito então descobre que os rumores são reais ao encontrar uma das entidades que habitam o imaginário local. Já é tarde, contudo, para impedir a chegada dos turistas. Em uma jogada de sorte, Tom conquistou um jornalista respeitado do The New York Times para fazer uma reportagem positiva sobre a ilha — o que provoca uma onda de visitantes curiosos pelo novo destino pitoresco. Testemunhando mais casos bizarros, o protagonista precisa se virar para impedir que novas tragédias aconteçam.
Com expressões impagáveis, Rhys é um dos trunfos da produção — que coroa sua boa fase na TV, desde o sensacional drama de espionagem The Americans (2013-2018) até, recentemente, o suspense de assassinato O Monstro em Mim, da Netflix. Ele divide o holofote com o também notável Stephen Root, intérprete de Wyck, velhinho dramático visto como o “louco da praça”, mas que sabia do que estava falando ao alertar sobre os perigos fantasmagóricos. Os nomes por trás das câmeras não são menos brilhantes: o roteiro é de Katie Dippold, responsável pela sitcom Parks and Recreation (2009-2015) e comédias como As Bem-Armadas (2013); já o quadro de diretores é de arrepiar qualquer espírito desavisado — com destaque para o premiado Hiro Murai, de Atlanta e O Urso, e o cineasta pop Ti West, da trilogia X, Pearl e MaXXXine. Ao seu modo, todos são experientes na mescla de terror e comédia e, principalmente, no uso do gênero como metáfora para um subtexto social. Em Widow’s Bay, o passado e as tradições se recusam a ser apagados pela ganância mal planejada. Como diz o ditado, é melhor rir para não chorar.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993