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A cada período de chuvas intensas, enchentes voltam a afetar diferentes regiões do Brasil, deixando um rastro visível de destruição nas cidades, com perdas materiais, interrupção de serviços e famílias desalojadas. É o que estamos presenciando neste momento em estados como Pernambuco e Paraíba.

Mas, quando a água baixa, surge um problema menos evidente e igualmente preocupante: o aumento do risco de doenças infecciosas.

Isso acontece porque a água da enchente não é apenas água da chuva. Ela costuma se misturar com esgoto, lixo urbano e outros resíduos, criando um ambiente propício para a circulação de microrganismos capazes de causar doenças.

Uma das consequências mais comuns é o aumento das infecções transmitidas pela água contaminada. Entre elas estão as gastroenterocolite agudas, que provocam diarreia e vômitos e podem ser causadas por vírus ou bactérias, além da hepatite A. Essas doenças podem ocorrer quando a pessoa consome água ou alimentos contaminados ou entra em contato com água de enchente.

Também são relativamente frequentes as infecções de pele. Pequenos cortes ou ferimentos podem funcionar como porta de entrada para bactérias e fungos presentes na água contaminada. Isso acontece, por exemplo, quando as pessoas caminham em áreas alagadas ou precisam limpar casas e estabelecimentos atingidos pela inundação.

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Entre todas as doenças associadas às enchentes, a leptospirose merece atenção especial. A bactéria que causa a doença está presente na urina de roedores e pode contaminar águas de esgoto. Durante as enchentes, ela se espalha com facilidade e pode penetrar no organismo pela pele ou pelas mucosas.

No Brasil, a leptospirose é considerada uma doença endêmica e costuma apresentar aumento de casos em períodos chuvosos. Entre 2010 e 2024, foram registrados mais de 42 mil casos confirmados no país, com média anual de cerca de 3.800 casos, segundo dados do Ministério da Saúde. Embora muitos quadros sejam leves, a doença pode evoluir para formas graves e apresenta letalidade média próxima de 9%, o que reforça a importância do diagnóstico e do tratamento precoces.

Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos, como febre, dor no corpo, mal-estar e dor de cabeça. Em alguns casos, porém, a doença pode evoluir para quadros graves, com icterícia, insuficiência renal, hemorragias e comprometimento respiratório. Na prática clínica, sempre que um paciente apresenta febre após contato com água de enchente, a possibilidade de leptospirose precisa ser considerada, para que o tratamento seja iniciado precocemente.

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Além das infecções que surgem logo após as enchentes, o período de chuvas também favorece o aumento das arboviroses, como dengue, chikungunya e zika. O acúmulo de água em recipientes, entulhos e outros pontos comuns da área urbana cria condições ideais para a reprodução de mosquitos do gênero Aedes, responsáveis pela transmissão dessas doenças.

Nesse cenário, o laboratório clínico exerce papel fundamental tanto no cuidado individual quanto na vigilância em saúde. Além de auxiliar no diagnóstico diferencial entre doenças febris que podem surgir após contato com água ou lama contaminadas, os exames laboratoriais permitem confirmar ou descartar os casos suspeitos que são notificados.

Como muito desses agravos são de notificação compulsória, os laboratórios comunicam resultados positivos às autoridades sanitárias. O cruzamento dessas informações com aquelas enviadas pelos profissionais de saúde que atendem os pacientes possibilita identificar rapidamente aumentos na incidência de determinadas doenças e orientar de forma mais ágil as ações de saúde pública após períodos de chuvas intensas e enchentes.

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Algumas medidas simples ajudam a reduzir os riscos. Sempre que possível, deve-se evitar o contato com água de enchente. Durante a limpeza de áreas atingidas, o uso de botas e luvas de borracha ajuda a proteger a pele. Também é importante consumir apenas água potável segura e alimentos que não tenham sido expostos à inundação. Outro ponto fundamental é a atenção aos sintomas. Febre, diarreia, vômitos, dor no corpo ou qualquer mal-estar após contato com água de enchente devem motivar a procura por atendimento médico.

Com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, compreender a relação entre chuvas, enchentes e doenças infecciosas torna-se essencial. Após episódios de inundação, informação, diagnóstico e atenção aos sinais do organismo são fundamentais para evitar complicações e proteger a saúde da população.

*Carolina Lázari é infectologista, patologista clínica e membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML)



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