Ler Resumo
Há mais de um século batendo ponto no frenético calendário de eventos de Washington, o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca reúne o batalhão de jornalistas responsável por acompanhar as costuras do núcleo duro do poder, em uma celebração não apenas da imprensa, mas da liberdade de expressão de forma mais ampla. A edição deste ano se aproximava envolta em suspense em relação ao que Donald Trump, que não raro teima em abalar tão bem estabelecido pilar, diria sob holofotes de projeção global. Pois o roteiro daquele sábado 25 saiu muito diferente do esperado, até mesmo em se tratando do imprevisível Trump, que, pela terceira vez, foi alvo de alguém desequilibrado e armado com o propósito de atingi-lo. O cenário de mais esta expressão da execrável violência entranhada no tecido da política americana era o hotel Hilton, mesmo palco de um atentado em 1981 contra Ronald Reagan, então ocupante do Salão Oval. Felizmente, o presidente, assim como todos os presentes, foram retirados às pressas do local, sem ferimentos (à exceção de um segurança que, embora alvejado, passa bem). Impedido pelos agentes de dar cabo a seu plano, o atirador, um professor da Califórnia, responde agora por tentativa de assassinato.
A poeira mal havia assentado e Trump se pôs a falar sobre o episódio, fazendo tudo reverberar em potência máxima nas redes. Com a popularidade de mal a pior, cravando o mais baixo patamar, em oitenta anos, para um presidente dos Estados Unidos a esta altura do mandato (33%) — o que pode cobrar alto preço nas eleições de meio de mandato em novembro —, ele tenta aproveitar o ensejo para desviar a atenção do espinhoso tema da guerra do Irã, que tantos dissabores tem lhe trazido, e acenar a sua base eleitoral, lançando luz à agenda que lhe interessa. Logo viu a oportunidade de defender um projeto para lá de controverso, que alçou ao topo da lista de prioridades: pôr de pé um salão de festas blindado para 1 000 pessoas na Casa Branca ao custo de 400 milhões de dólares, já alvo de seguidos bloqueios judiciais, o que não impediu a demolição da Ala Leste do edifício. “Um ataque como esse jamais teria acontecido em uma estrutura fortificada, à prova de drones e de balas, projetada com as Forças Armadas!”, postou, deixando de citar que o evento dos correspondentes, por sua natureza privada, jamais seria abrigado na residência oficial e passando ao largo das evidentes falhas naquele sábado do Serviço Secreto, que ele elogiou.

Os ares de palanque vêm se intensificando desde então. “O discurso de ódio dos democratas é o maior perigo de todos”, bradou o presidente, sugerindo que o motor do atentado frustrado seriam as falas raivosas dos opositores, que estariam elevando a fervura do caldo da polarização — o qual, sabidamente, ele, Trump, alimenta com notável vigor. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, tratou de ecoar o chefe ao denunciar “o culto ao ódio da esquerda”. “O presidente sofre uma demonização sistemática pelo Partido Democrata e pela mídia”, esbravejou a fiel assessora. Apesar de ter se afastado de Trump em uma disputa inadministrável de egos, o bilionário Elon Musk também se valeu do caso para engrossar o coro antidemocrata. “Se existem pessoas que estão dispostas a morrer para nos assassinar, imagine o que farão se a oposição conquistar o poder”, escreveu no X, falando aos republicanos, que ele continua a apoiar e que, segundo pesquisas recentes, podem perder não apenas a maioria na Câmara, o que já é esperado, como também o controle do Senado.
Outra tática de Trump para recuperar terreno após o fatídico jantar é dar voz a um discurso feito sob medida para a base conservadora, o Maga, aquela turma que agita a bandeira da “América Grande” e que, não faz muito tempo, o endossava incondicionalmente, mas anda desiludida. Ao descrever o autor da trama para atacá-lo, Cole Tomas Allen, de 31 anos, o presidente disse ser um “anticristão” — o que parece colidir com o manifesto de contornos teológicos escrito de próprio punho pelo tal professor, claramente desequilibrado, que ali se autointitulou cristão, alegando querer proteger gente oprimida pelas políticas do “pedófilo, estuprador e traidor” Trump. Recentemente, o mercurial mandatário deu de direcionar sua metralhadora verbal para o próprio sumo pontífice, Leão XIV, que havia se pronunciado a favor da paz no Oriente Médio e ouviu dele que era “fraco, péssimo em política externa”. Acabou caindo muito mal para uma preciosa fatia do eleitorado (62% se declaram cristãos), à qual justamente ele se dirige agora, já que por nada pode perdê-la. Precisa ter cuidado. “Para o americano religioso, a fé vem em primeiro lugar, e a política depois”, observa o sociólogo Landon Schnabel, da Universidade Cornell.
Se o tabuleiro doméstico já se revela suficientemente complexo, no plano externo Trump também não tem tido vida fácil. Em meio a um impasse diplomático com Teerã, o que conduz o conflito a uma espécie de limbo, definido por especialistas como “nem guerra nem paz”, o presidente não se queixou de ser fartamente fotografado nestes dias ao lado do rei Charles III, que foi a Washington com a rainha Camilla sob a festiva moldura dos 250 anos da independência americana. O encontro, é verdade, já estava marcado antes do enrosco com os iranianos, mas veio em boa hora, já que as relações entre Reino Unido e Estados Unidos andam sob alta tensão. E nada como um monarca para pôr panos quentes. Apesar da lembrança de “nossas divergências”, palavras pronunciadas com educada nobreza, Charles enveredou pela “histórica relação transatlântica” e pela capacidade de “superar nossos conflitos”. Não custa lembrar que Trump e o primeiro-ministro Keir Starmer têm trocado alfinetadas depois que o britânico, tal como outros colegas europeus, se recusou a endossar a guerra no Oriente Médio. “Starmer comete erros trágicos”, disparou o americano, que acusa toda a Europa de “covardia”. Essa semana, o chanceler alemão Friedrich Merz deu nova mostra de quão esgarçado está o laço entre os antigos aliados. “Os Estados Unidos estão sendo humilhados pelo Irã”, falou.

Apesar da supremacia militar americana, que já impôs fragoroso prejuízo à marinha do Irã, hoje enfraquecido e com a economia devastada, Teerã vem jogando duro à mesa de negociações. Dias atrás, a Casa Branca precisou cancelar pela segunda vez o envio de uma delegação ao Paquistão (na primeira, o vice-presidente JD Vance já havia até feito as malas), que atua como mediador, para o que seria uma nova rodada de conversas para pôr fim ao conflito. Foi decisão dos aiatolás suspender encontros diretos até que os Estados Unidos encerrem o bloqueio naval a portos e navios da nação persa que transitam pelo nevrálgico Estreito de Ormuz, o que vem estrangulando ainda mais as finanças do Irã. Uma nova proposta de paz do regime, que recém chegou ao Salão Oval, foi logo descartada, especialmente por deixar de fora o ponto que, afinal, sempre foi a razão de ser do confronto: a paralisação do programa nuclear iraniano, assunto que eles sugeriram adiar para depois do desfecho da guerra, em um horizonte não determinado. “As tratativas têm sido altamente ineficazes”, avalia Bamo Nouri, especialista em política internacional da University of West London.
Uma fonte adicional de dor de cabeça para Trump é a insistência de seu aliado, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, em bombardear o Líbano — com o objetivo de eliminar o Hezbollah, milícia xiita aliada do Irã —, rompendo sucessivamente o cessar-fogo com o vizinho. A ofensiva de Israel, que o próprio Trump pediu para ser freada para não atrapalhar as conversas com Teerã, já deixou como saldo um rastro de destruição por todo o país, inclusive na capital, Beirute, e 2 500 mortos, entre eles os brasileiros Manal Jaafar e Ali Ghassan Nader, de 11 anos, mãe e filho, que, junto do pai, o libanês Ghassan Nader, outro que perdeu a vida, aproveitavam a janela da trégua para ver como estava a casa que haviam abandonado em meio aos destroços. Enquanto isso, Estados Unidos e Irã não cedem um milímetro e continuam a trocar hostilidades, muitas delas alimentadas por esdrúxulos posts nas redes à base de inteligência artificial. No mais recente, Trump se exibe armado com fuzil, usando terno e óculos estilo aviador em frente a um cenário de explosões no Oriente Médio, e ameaça: “Chega de ser bonzinho”. Nada de muito promissor pode vir desse recado.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993