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De uns anos para cá, cozinhar deixou de ser apenas um hábito doméstico para se tornar uma forma de lazer e um ritual social. Esse movimento tem levado muita gente a investir mais em ambientes propícios para isso, com cozinhas bem equipadas e espaços pensados para receber. Eu e meu marido adoramos, de tempos em tempos, testar receitas, experimentar combinações novas e reunir convidados em torno da mesa. Não somos os únicos. Cada vez mais, amigos nossos, empresários e formadores de opinião que talvez não imaginássemos na cozinha, apreciam pôr em prática os dotes culinários. Seja como anfitriões ou comensais, essas ocasiões são prazerosas.

“Os médicos recomendam aprender novas atividades para manter o cérebro afiado”

E, para nossa alegria, a ciência mostrou que são também boas para a cabeça. Um estudo japonês recente mostrou que cozinhar é um excelente exercício para a mente. Até se praticado uma só vez na semana já colabora para a preservação das funções cerebrais. Adorei saber disso, e não só porque a pesquisa associa um ato central do meu cotidiano a uma redução importante do risco de demências. O estudo também transforma em dados algo que dá para sentir, intuitivamente, quando a gente se entrega a esse gosto: cozinhar mobiliza a mente de um modo particular. Em geral, quando se fala em manter o cérebro ativo, costumamos pensar em palavras cruzadas, sudoku, aplicativos. Tudo isso tem seu valor. Mas a cozinha oferece uma atividade integrada à vida, que coloca a inteligência em movimento. Talvez se aproxime mais de atividades como tocar um instrumento ou praticar um esporte técnico — experiências em que pensamento e movimento se ajustam continuamente. Isso porque preparar a própria comida exige diferentes formas de atenção e planejamento. Há uma sequência de decisões — de combinações, proporções, ritmos e pontos — que se encadeiam e pedem presença contínua. A mente, nesse caso, acompanha o gesto. Vai além do raciocínio abstrato exigido em um passatempo ou desafio intelectual. Demanda percepção e capacidade de reagir aos pequenos desvios que surgem ao longo do processo, aqueles ajustes quase intuitivos que fazem diferença no resultado final.

Existe também uma dimensão menos evidente, mas igualmente importante: o envolvimento direto com o que se faz. Ao lidar com ingredientes, transformações e pontos, desenvolvemos uma atenção mais refinada: tanto ao processo quanto ao que chega à mesa. Se você é do tipo que nunca chegou perto do fogão, não se preocupe. Aliás, pode até se alegrar. Ainda segundo a pesquisa, os benefícios mais do que dobram para quem é iniciante nas panelas. Não é à toa. Há tempos os médicos recomendam aprender novas atividades para manter o cérebro afiado. Quem já tem o hábito acaba realizando algumas tarefas no automático. Nesse caso, o bom é manter a curiosidade em ação, procurando desafios também na cozinha. Ela pode ser uma espécie de laboratório criativo, onde tratamos um novo prato como um projeto, aprimorando técnicas e preparos até chegar ao resultado pretendido. Acho que a ciência ilustra, de forma concreta, o que dizia Nietzsche. Embora filósofo, o pensador alemão valorizava muito a experiência do corpo e via a mente como apenas um de seus elementos. Cozinhar talvez seja, então, uma forma de pensar com as mãos.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993



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