
O choque de gerações dentro das empresas sempre existiu, mas nos últimos anos deixou de ser apenas uma diferença de idade e passou a revelar uma mudança profunda de mentalidade. Se antes o trabalho era quase uma extensão da identidade pessoal, hoje ele ocupa um espaço mais delimitado na vida de muitos jovens profissionais. É menos sobre viver para a carreira e mais sobre encaixar a carreira em uma vida que faça sentido.
Gerações mais antigas
A economista e professora Carla Beni resume bem essa virada ao lembrar que sua geração foi formada para produzir e entregar resultados. “O trabalho era a minha vida”, afirma. Segundo ela, havia uma educação voltada para o desempenho, para não falhar e para não “dar trabalho”, como se a realização pessoal estivesse necessariamente ligada ao sucesso profissional.
Sem tempo para diversão
Esse modelo, porém, também trouxe um efeito colateral silencioso: o medo da aposentadoria. Carla observa que muitas pessoas não desenvolveram hobbies, prazeres ou interesses fora do ambiente corporativo, transformando o fim da carreira em uma espécie de vazio existencial. Para muitos, parar de trabalhar parecia uma “morte em vida”, justamente porque toda a identidade estava concentrada ali.
Trabalho faz parte, não é a própria vida
Já as novas gerações parecem ter feito outra descoberta. “O trabalho faz parte da vida delas. Não é a vida delas”, destaca Carla. Essa percepção muda completamente a relação com emprego, metas e permanência nas empresas. O jovem não rejeita o esforço, mas questiona se ele vale o custo emocional e pessoal exigido.
Geração Z
A cientista comportamental Gaya Machado reforça essa leitura com números que ajudam a explicar o fenômeno. Segundo ela, apenas 6% da Geração Z têm como objetivo alcançar cargos de liderança, enquanto seis em cada dez colocam a saúde mental como prioridade quando o assunto é trabalho. “Realmente a gente vivia para trabalhar e agora se trabalha para viver”, resume.
CLT sim, mas com flexibilidade
Para Gaya, a suposta rejeição à CLT não significa rejeição ao vínculo formal, mas ao modelo rígido e inflexível. O problema está no formato “oito às oito”, sem autonomia e com pouca confiança institucional. A saída, segundo ela, está em programas multigeracionais e mentorias cruzadas, onde experiência e novas visões convivam sem disputa. Carla concorda: equipes mistas, apesar das tensões naturais, produzem aprendizado e resultados mais sustentáveis para todos.
Baby Boomers e Geração X
- O Trabalho como Vida: Para essas gerações, o trabalho era a própria vida, e não apenas parte dela. As pessoas eram educadas para produzir, dar resultados e não causar problemas.
- Medo da Aposentadoria: Existe um receio significativo da aposentadoria, vista por muitos como uma “morte em vida”, pois não desenvolveram outras habilidades ou fontes de prazer fora do ambiente profissional.
- Pressão Social e de Gênero: Para as mulheres dessas gerações, houve uma cobrança muito alta (própria e da sociedade) para terem sucesso, já que foram as pioneiras a abrir as portas do mercado de trabalho para as futuras gerações.
Millennials, Geração Z e Alpha
- Trabalhar para Viver: Diferente de seus antecessores, os jovens descobriram que o trabalho faz parte da vida, mas não é a vida toda. Eles priorizam o bem-estar e a saúde mental no topo de suas prioridades profissionais.
- Prioridades e Liderança: Na Geração Z, apenas 6% têm como objetivo profissional um cargo de liderança, enquanto seis em cada dez colocam a saúde mental como prioridade máxima.
- Flexibilidade e Novos Modelos: Embora busquem segurança financeira e estabilidade (valorizando aspectos da CLT), eles rejeitam o modelo tradicional rígido, como o horário fixo sem flexibilidade ou o trabalho presencial impositivo, que veem como falta de confiança.
- Seleção de Empregadores: Talentos mais jovens são seletivos; se não sentirem que o empregador valoriza a qualidade de vida e o equilíbrio, eles simplesmente não escolherão essa empresa.
Pontos de Convergência
Apesar das tensões geracionais, existe um movimento que tende a unir os trabalhadores atuais: a defesa de jornadas menores e o fim da escala 6×1. Esse movimento é visto como essencial para a saúde mental de todas as idades, permitindo que o trabalhador tenha tempo para descansar, se atualizar e dedicar-se à vida pessoal.