Motociclistas responderam por 45% das mortes no trânsito no estado de São Paulo no primeiro trimestre de 2026, segundo dados do Infosiga, sistema do Detran-SP. O índice mostra o avanço da participação desse grupo nas fatalidades: há dez anos, eles representavam cerca de 30% dos óbitos.
Esse cenário se torna mais crítico nas cidades, onde a motocicleta passou a ocupar um papel central nos deslocamentos cotidianos e na prestação de serviços. As vias urbanas concentraram 55,6% das mortes no trânsito paulista no primeiro trimestre.
“Além da fragilidade do motociclista, que não conta com a proteção de um veículo, há uma infraestrutura urbana ainda pouco adaptada para a convivência segura entre diferentes modos de transporte. Pavimento irregular e sinalização insuficiente são problemas comuns”, explica Isabela Carcinoni, engenheira civil especializada em segurança viária e representante do Maio Amarelo em São Paulo.
Promovido pelo ONSV (Observatório Nacional de Segurança Viária) e coordenado pela Senatran, o movimento busca conscientizar a sociedade quanto ao alto índice de mortes e sinistros no trânsito. A edição deste ano também aponta os motociclistas como grupo mais vulnerável.
O papel da engenharia de tráfego e das políticas de mobilidade na prevenção de ocorrências foi destacado, ainda, na cerimônia de abertura da campanha, nesta quarta-feira (29), em Brasília.
“Apesar dos avanços, a infraestrutura existente muitas vezes não é capaz de cuidar dos mais vulneráveis. Uma defensa metálica nas bordas de uma via, por exemplo, é um elemento de segurança para automóveis e de insegurança para motocicletas”, afirmou Paulo Guimarães, CEO do ONSV.
Entre as vítimas, o perfil predominante segue sendo de homens jovens. De janeiro a março de 2026, 86% dos óbitos foram masculinos, com maior incidência na faixa de 18 a 24 anos. Dentro desse grupo, 40% das vítimas estavam em motocicletas.
Cenário ainda preocupa
Apesar da concentração de mortes entre motociclistas, o total de óbitos no trânsito paulista caiu 7,6% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. São Paulo também foi o primeiro estado a instituir o Plano de Segurança Viária, que orienta ações para o período de 2025 a 2035 e visa reduzir em 50% as mortes no trânsito.
De acordo com Isabela, no entanto, a queda no número de fatalidades precisa ser analisada com bastante cautela.
“São Paulo vem de um 2025 muito letal e a redução não muda o fato de que o número de vidas perdidas segue inaceitável. Variações de curto prazo podem sofrer influência de fatores conjunturais, como mudanças no volume de tráfego ou condições econômicas”, explica.
O primeiro trimestre de 2025 havia sido apontado, à época, como o mais letal no trânsito paulista na última década, com mais de 1.400 mortes entre janeiro e março — média de 15 óbitos por dia. O último trimestre do mesmo ano foi ainda mais grave, com 1.513 mortes entre outubro e dezembro.
Embora o fim de ano costume concentrar mais deslocamentos e, consequentemente, maior risco de ocorrências, 2025 terminou como o ano mais fatal da última década, com percentual de fatalidade de 5,64%
Um estudo realizado pelo ONSV em novembro de 2025, em parceria com a UFPR (Universidade Federal do Paraná), revela também que a cidade de São Paulo, que registra a maior frota de veículos do país, conta com apenas 1,64 radar para cada 10 mil veículos — ocupando o 18º lugar na classificação.

Maio Amarelo
Idealizado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 2011, o Maio Amarelo busca estimular a participação da sociedade em ações coordenadas de segurança em todo o mundo. A edição de 2026 tem como tema “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”.
“Acreditamos que qualquer redução de óbitos é importante, mas nunca suficiente. É fundamental manter e ampliar ações estruturais, como desenho viário mais seguro, controle de velocidade e políticas públicas contínuas”, completa Isabela.
De acordo com o Ministério dos Transportes, a agenda para as ações no Brasil já está fechada. Em Brasília, a PRF (Polícia Rodoviária Federal) realiza a abertura do Maio Amarelo no dia 5 de maio. Já no dia 6, oferece um Pit Stop educativo. Nos dias 12 e 13 de maio, a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) promove o Seminário Vias Seguras.
* Sob a orientação de Jenifer Ribeiro