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Aos 39 anos de idade, em 2011, o advogado Marcos Pereira, então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (hoje é licenciado), assumiu a presidência do Republicanos, legenda que lidera até hoje. Sob seu comando, a agremiação saltou de uma sigla nanica no Congresso para um dos partidos mais influentes do Centrão — grupo político que ele nega existir. Mestre e doutor em direito, autor de livros sobre a área e professor universitário, ele classifica como “lamentável” que o impeachment de ministros do Supremo seja mote da campanha eleitoral e defende maior harmonia entre os poderes da República. Apesar de seu partido ter comandado uma pasta na Esplanada no atual governo Lula, com Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos), ele nega que a legenda tenha embarcado na nau do petista, a quem descarta apoio na eleição. Embora aponte grande chance de caminhar com Flávio Bolsonaro, diz que um apoio vai depender do quanto o senador do PL, a quem faz críticas, abraçará as candidaturas do Republicanos nos estados: “Nosso caminho é a neutralidade ou o apoio a Flávio, que depende de alguns gestos”.
Como professor e autor de livros sobre direito, o senhor acredita que deveria existir alguma regulação sobre a conduta dos ministros do Supremo? Esse é um tema sobre o qual os membros da Corte é que têm que decidir. A autocontenção é algo que os magistrados precisam debater entre eles e chegar a um consenso. Não há dúvida no meio jurídico de que existem alguns excessos no Judiciário, muito por conta também da inércia do Parlamento, que deveria fazer o check and balance (freios e contrapesos entre os poderes) e às vezes não o faz.
O STF será um assunto na eleição, com candidatos prometendo pautar o afastamento de magistrados. O que acha disso? É um tema que vai ser muito invocado, mas é lamentável que se vá para a campanha pontificando quem é a favor ou quem é contra o impeachment de ministro do Supremo. A Constituição diz que os poderes são independentes e harmônicos. As instituições precisam, sim, fazer uma revisão da institucionalidade e da sua harmonia. Como jurista, digo que se reclama da atuação do Supremo, mas boa parte dela é provocada pelos partidos, que, quando perdem na arena política, vão à Corte para que ela decida o que já está decidido. Aí ocorre a judicialização da política, o que abre margem para a politização do Judiciário. Há uma desarmonia flagrante e que precisa ser ajustada.
O senhor é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e um dos líderes evangélicos no Congresso. Qual vai ser o peso desse estrato religioso nas eleições deste ano? Muito grande. E isso desfavorece, evidentemente, o presidente Lula, por causa da pauta conservadora, da família. O segmento tem identificação com o que o outro campo político está colocando.
Lula tem conseguido falar com os evangélicos? Eu acho que não. Faltam gestos, falta uma série de coisas, e ele não tem conseguido. Parece-me, salvo melhor juízo, que não está havendo muito esforço também.
O Republicanos é frequentemente apontado como um partido do Centrão. O Centrão existe? Eu costumo dizer que ele é uma ficção criada pela imprensa. Existe o centro democrático, existem direita, esquerda e aqueles partidos que se posicionam mais ao centro. O Republicanos, no seu manifesto político, diz que é um partido de centro-direita. Temos valores muito bem estabelecidos sem deixar de dialogar com todos os que fazem parte do debate político.
“Quando perdem na arena política, os partidos vão à Corte para que ela decida o que está decidido. Aí ocorre a judicialização da política, o que abre margem para a politização do Judiciário”
Quem o Republicanos irá apoiar nas eleições presidenciais? O partido, quando foi criado, em 2005, teve nos seus quadros de fundação o ex-vice de Lula, José Alencar. A história não se reescreve, ela já está escrita. Em 2012, um ano após eu ter assumido a presidência nacional, comecei a fazer um movimento de trazê-lo mais ao centro e mais um pouco à direita. Na composição atual de deputados, senadores e governadores, além dos pré-candidatos a governos estaduais, é muito pouco provável que a gente consiga caminhar com o atual presidente. Nosso caminho é uma neutralidade ou o apoio ao senador Flávio Bolsonaro. Todavia, isso depende também de alguns gestos e de alianças políticas.
De que gestos o senhor fala? O Republicanos tem hoje sete estados onde temos pré-candidatos. Em São Paulo, com Tarcísio de Freitas disputando a reeleição, já há um alinhamento automático ao Flávio. Eu pedi um gesto ao senador para que pudéssemos fazer aliança no Espírito Santo, até porque eles não têm candidato a governador lá. Em Minas Gerais, nós temos o senador Cleitinho Azevedo, que está disparado em primeiro lugar nas pesquisas. Falo em dialogar no sentido de um apoio de reciprocidade do PL ao Republicanos. Sempre ouvimos um “vamos avaliar”, “temos que ver”, “não posso fazer nada de cima para baixo”. Não peço isso. Pedi que se fizesse uma conversa, uma aproximação.
O senhor acha que essa conversa ainda pode acontecer? Até agora, não houve nenhuma. Aliás, teve um episódio extremamente desagradável no dia 25 de abril, em Mato Grosso. Lá, o PL tem um candidato, um senador da República (Wellington Fagundes), e o Republicanos tem o atual governador (Otaviano Pivetta), que era vice e assumiu. Ambos estavam em um evento com Flávio e ele nem sequer citou o governador. As alianças partidárias precisam ser dialogadas e isso não está acontecendo.
Falta o PL procurar o Republicanos? Não é nem o PL. Meu diálogo com o Valdemar Costa Neto é muito bom. E essa decisão não é do Valdemar. Ela é mais do candidato a presidente, que precisa formar um palanque forte nos estados. Claro, essa conversa não está encerrada. Tenho falado com o Flávio por telefone algumas vezes. Vamos ter outros encontros presenciais.
No que a candidatura de Flávio difere da de Jair Bolsonaro? Vou comparar a candidatura dele com a candidatura de reeleição do pai dele, porque 2018 foi completamente fora da curva. Eu gosto do Jair Bolsonaro, tenho uma boa relação com ele, com a Michelle. E fui uma das vozes que atuaram junto ao STF para que ele pudesse estar em prisão domiciliar. Flávio tem mais diálogo, é mais jovem, mais leve. As pesquisas anteriores a ele ser pré-candidato o apontavam com o pior desempenho no clã. Eduardo tinha um desempenho melhor, Michelle também. Agora, Flávio está surpreendendo. Eu diria que o senador dialoga um pouco mais ao centro. Ele não pode casar de vez com o radicalismo, porque esse eleitor mais apaixonado, mais extremista, ele já tem. Ele precisa conquistar o eleitor de centro.
Ele pode derrotar Lula? Não dá para precisar hoje. A eleição vai ser extremamente polarizada de novo. Desde a redemocratização, a eleição está entre dois polos e o PT sempre é um deles. Com todo o respeito a Ronaldo Caiado e Romeu Zema, é muito difícil — eu diria quase impossível — que esses candidatos furem a polarização. A eleição poderá ser mais apertada do que foi a de 2022. Tenho analistas de pesquisas que dizem que a disputa poderá ser definida com uma diferença de 1 milhão a 1,5 milhão de votos.
Quais são os planos do Republicanos para Tarcísio de Freitas? Ele será candidato a presidente em 2030? Como cidadão, como brasileiro radicado em São Paulo desde 1999 (nasceu no Espírito Santo), vejo que ele está fazendo um excelente governo, mas poderia ter sido nosso candidato a presidente. Se fosse Tarcísio, a diferença para Lula estaria muito maior nas pesquisas. Nosso projeto imediato é garantir sua reeleição.
“Tirando a reforma tributária, que já vinha sendo construída havia tempo, qual a mudança relevante deste governo? O próximo presidente, seja Lula ou Flávio, terá que cortar gastos”
Caso Lula ganhe, o Republicanos embarcaria no governo outra vez? Eu não diria que embarcamos neste governo. Tivemos um filiado, o deputado Silvio Costa Filho, muito competente, habilidoso, que foi ministro por um período, porque ele e a família têm uma relação pessoal com Lula. Foi uma circunstância muito específica. O partido continua atuando na Câmara como independente e no Senado como oposição, porque os nossos senadores são um pouco mais de direita.
Comandar ministério, por exemplo, é algo que pode ou não acontecer? Eu sou muito pragmático. As coisas têm que acontecer no seu devido tempo.
O senhor criticou a PEC do fim da escala de trabalho 6×1 e disse que “ócio demais faz mal”. Depois pediu desculpas. Como irá votar? A favor. Eu fiz uma manifestação que foi mal compreendida e mal analisada, fui bastante agredido nas redes sociais por pessoas que não compreenderam a minha fala. Mais de 90% dos CNPJs brasileiros são de micro e pequenas empresas. Um mercadinho, um bar, uma farmácia, uma mercearia. Essas empresas empregam um, dois ou três funcionários e são responsáveis por mais de 58% dos empregos formais do país. O que tenho ouvido desses empresários é que eles vão ter dificuldades para manter uma eventual mudança. É óbvio que é importante que o trabalhador tenha mais tempo. Fiz um vídeo me retratando porque as pessoas não compreenderam bem a minha fala. Sendo pautado, eu vou votar a favor, e o Republicanos indicará a votação a favor da proposta também.
Lula tem uma desaprovação de cerca de 50% da população. Quais foram seus principais equívocos? Eu sou crítico à política econômica da esquerda. Não acho que muita ingerência do Estado na economia funcione. O Estado deve ser um indutor e um regulador, não um condutor do crescimento. E o que a gente viu com ele e Dilma Rousseff foi o aumento de gastos públicos. Tirando a reforma tributária, que é uma coisa que já vinha sendo construída havia tempo, qual foi a mudança relevante neste governo? O próximo presidente, seja Lula, seja Flávio, terá que cortar gastos.
O senhor foi cotado para presidir a Câmara, mas retirou a candidatura para apoiar Hugo Motta, também do Republicanos. Como ele está se saindo? Ele teve um primeiro ano extremamente difícil, tinha pautas como a anistia ao 8 de Janeiro, que depois virou o PL da Dosimetria. Tinha deputados em torno dos quais ficava um cassa, não cassa. Teve o aumento das alíquotas do IOF. Mas ele limpou essa pauta e neste ano já entrou numa outra pegada, muito mais positiva.
O Congresso está discutindo à altura os escândalos do INSS e do Banco Master? O Parlamento fez o que poderia fazer em relação ao INSS, que foi a CPMI. Mas esses temas estão no Judiciário, sob relatoria do ministro André Mendonça, que é extremamente técnico, competente e tem respaldo da Corte e imparcialidade para conduzir o processo. O Ministério Público e a Polícia Federal estão fazendo as investigações. Que sigam sendo feitas lá, por quem é competente para isso.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993