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Desde as mais antigas civilizações, as pessoas já cultivavam o hábito de apostar. Enquanto os egípcios arriscavam bens e mercadorias no senet, jogo de tabuleiro que simbolizava a travessia da alma rumo ao além, os romanos tentavam a sorte em lutas de gladiadores e corridas de bigas — versões para lá de modestas diante da envergadura que tomou o moderno mercado de apostas, alavancado pela bilionária seara dos palpites esportivos e dos tigrinhos das bets. Pois o que já era agitado entrou agora em mais uma efervescente fase, variando nos temas de forma surpreendente: a nova brincadeira virtual (que pode sair cara para muita gente) é tentar acertar desde o resultado de eleições presidenciais à duração de uma reunião na Casa Branca. No rol, consta até um suposto retorno de Jesus Cristo — se não se confirmar até 31 de dezembro deste ano às 23h59, a turma que colocou dinheiro na volta do Messias perde tudo.

Mesmo envolto em controvérsias, entre as quais o plausível risco de uso de informações privilegiadas obtidas junto às rodas do poder, o chamado mercado preditivo, que já atrai multidões do mundo inteiro, inclusive brasileiros, movimentou 40 bilhões de dólares em 2025 e prevê-se chegar a 1 trilhão em cinco anos. Essas casas de apostas on-­line começaram a brotar nos anos 2000, mas nada que tomasse os contornos de um fenômeno como o encabeçado agora pelas duas gigantes do setor, as americanas Kalshi e Polymarket. Nas últimas semanas, elas registraram um boom com a guerra no Irã, assunto sobre o qual se palpita de tudo — onde será o próximo ataque, a extensão da trégua e por aí vai. Resultado: disparada de 400% no volume de lances, em uma escolha simples entre “sim” ou “não”. Em média, 600 000 usuários por mês ficam às voltas com indagações tão distintas quanto “a China vai invadir Taiwan?” e “a existência dos aliens será mesmo confirmada?”.

SUSPEITA - Maduro preso: sortudo ficou rico ao acertar horário da captura
SUSPEITA - Maduro preso: sortudo ficou rico ao acertar horário da captura (XNY/Star Max/Getty Images)

A aposta funciona como qualquer ação negociada em bolsa: o valor (no máximo 1 dólar) flutua em meio à gangorra de compra e venda. As plataformas são intermediárias em uma dinâmica na qual os participantes duelam entre si. Quem perde paga. É diferente das bets, onde os sites definem probabilidades e prêmios, bancando os vencedores. Com tudo ainda muito novo, mais de cinquenta países proíbem essas operações, mas as pessoas sabidamente têm conseguido furar o bloqueio alterando a VPN, conexão criptografada que oculta a localização de internautas. Na segunda-feira 4, o Brasil ingressará no pelotão de nações onde este mercado é proscrito pelo governo federal, enquanto não houver uma legislação em vigor, como já têm as bets (agora, aliás, na mira de um projeto da gestão Lula para bani-las). Até então, os brasileiros estavam literalmente no jogo, viabilizando suas apostas por meio de contas no exterior. Mas ainda há outras portas: em março, a Kalshi, cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara, anunciou consórcio com a XP, cuja plataforma começou a oferecer aos clientes palpites sobre indicadores econômicos como via (arriscada) de investimento. A bolsa de valores de São Paulo também entrou na roda, oferecendo apostas voltadas para temas financeiros — como o valor que o dólar atingirá em tal data —, por ora limitadas a investidores profissionais.

Entre as idas e vindas da geopolítica, tantos são os tópicos trazidos à baila que uma fatia dos que se aventuram se vê mais imersa na atualidade. “Jogando, fico antenado com os eventos mundiais”, diz o estudante Carlos Arthur Lopes, 26 anos, que a toda hora também esbarra ali com questões nacionais. Uma delas: Ana Paula Renault vencerá o BBB26? (levou a melhor quem confiou na vitória da moça). O impulso decisivo para o nicho veio em 2018, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos liberou as bets esportivas, e logo o leque de assuntos se diversificou. As eleições presidenciais americanas de 2024, sob a moldura de um país ultrarrachado pela polarização, em que não dava para cravar nada, foram um divisor de águas. O mercado preditivo era até então vetado por lá, daí o FBI ter iniciado investigação sobre a líder Polymarket, arquivada quando a atividade foi oficializada, em julho passado, na gestão Donald Trump. A decisão exasperou uma banda da oposição, que enviou carta ao órgão regulador, enfatizando: “Esse setor virou um Velho Oeste”.

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CONSELHEIRO - Trump Jr.: assentos nas duas gigantes do setor
CONSELHEIRO - Trump Jr.: assentos nas duas gigantes do setor (Justin Lane/EPA/EFE)

Um dos espinhosos pontos sempre levantado é o quanto de informações privilegiadas, daquelas de que só o núcleo duro do poder dispõe, podem vir a beneficiar apostadores bem conectados. Esse caldeirão ferveu depois que Donald Trump Jr., o primogênito do presidente, tornou-se consultor remunerado da Kalshi e fez investimento vultoso na Polymarket, onde ocupa assento no conselho. Muita gente viu aí uma ligação no mínimo inapropriada. Alguns casos recentes vêm ajudando a atiçar a polêmica, como o do soldado americano que, horas antes da operação que capturou o presidente Nicolás Maduro, lucrou meio milhão de dólares ao acertar o momento exato da queda do ditador e foi indiciado pouco depois — na terça-feira 28, declarou-se inocente na primeira audiência do caso. Outro que chamou atenção foi a duração de um pronunciamento da porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, finalizado em tom apressado segundos antes do prazo estabelecido pela aposta.

O mundo ilimitado dos palpites on-­line fornece combustível ainda a um debate de viés mais filosófico. Há um mês, a Polymarket foi alvo de críticas de escala planetária após milhares de pessoas apostarem dinheiro na morte de um piloto americano cujo avião havia sido abatido no Irã — e naturalmente torcerem por isso. Proliferam previsões sobre o local de bombardeios e mortes de líderes no Oriente Médio. “Vivemos uma espetacularização da tragédia, o que pode gerar uma perigosa apatia nas pessoas, com alto potencial de vício”, observa Sarah Mills, dedicada a estudos do comportamento humano na Universidade de Loughborough, no Reino Unido. No Brasil, as apostas on-line já despontam como o principal fator de endividamento das famílias. São os crescentes sacolejos no cenário global que alimentam essas plataformas, as quais prosperam sob a promessa de dinheiro fácil. “Apostar dá uma sensação de controlar o futuro”, afirma Renata Bento, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Uma ilusão que, ganhando ou perdendo, não faz bem a ninguém.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993



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