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Nes-Min, sacerdote egípcio que viveu por volta do ano 330 a.C., tinha problemas na coluna e provavelmente sentia dores na lombar, como muitas pessoas nos dias de hoje. Nes-Hor, que por sua vez viveu no ano 190 a.C., tinha problemas graves no quadril e, supostamente, precisaria de ajuda para andar.

Informações tão específicas sobre a vida e saúde de egípcios que viveram antes de Cristo só foram descobertos graças à tomografia computadorizada de seus corpos mumificados. Conduzida por radiologistas da Universidade do Sul da Califórnia, a investigação trouxe à tona a vida das múmias e pode “humanizar” esses indivíduos que um dia estiveram vivos. Além disso, gerou imagens e figuras 3D que serão expostas na exibição “Múmias do Mundo”, no California Science Center.

O feito foi uma “autópsia virtual”, ou virtópsia, de acordo com a Dra. Summer Decker, diretora do Centro de Inovação em Visualização Médica da USC, em entrevista à VEJA. “Usamos isso em desastres de massa ou homicídios hoje em dia para não precisar cortar o corpo. Temos uma obrigação ética de documentar e aprender sem destruir”.

Foto de cientista usando computador com tomografia computadorizada de múmia na tela.
Após o scan dessas múmias, partes delas foram transformadas em modelos 3D. (Ricardo Carrasco III/USC/Reprodução)

As múmias foram escaneadas dentro de parte de seus sarcófagos, cada um pesando aproximadamente 90 quilos. Elas estavam enfaixadas com mortalhas feitas de linho. O tomógrafo utilizado mostrou pequenos detalhes de cada um dos corpos, como cílios e lábios. As imagens também deram aos cientistas dicas sobre seus estados de saúde, suas experiências e por quanto tempo eles viveram.

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De acordo com as imagens escaneadas, Nes-Min tinha uma lombar colapsada, o que daria dor e poderia gerar outros problemas relacionados com a coluna. Nes-Hor, por outro lado, passava por uma situação pior. Com problemas nos dentes e no quadril, o sacerdote não conseguiria andar sem ajuda, além de que o quadro teria sido “extremamente doloroso e debilitante”, de acordo com Decker.

A pesquisadora explica que, no caso de Nes-Hor, pequenos furos foram encontrados ao redor da área da coluna, com marcas que “parecem de ferramentas”, o que pode ser evidência da cicatrização de um procedimento, feito quando ele ainda estava vivo. “Os egípcios eram conhecidos por fazer furos no crânio por razões científicas sólidas, como aliviar a pressão cerebral, mas nunca ninguém descreveu evidência de intervenção espinhal antiga — essencialmente uma cirurgia de coluna precoce”. Para Decker, essa descoberta é emocionante para os cirurgiões, que agora sabem que alguém há 2.300 anos fazia o mesmo que eles fazem hoje.

Escaneamos para entender e proteger. Quando terminamos de imprimir em 3D os ossos e escaravelhos, levei para meus alunos de medicina e disse: ‘Esta é a primeira vez em 2.000 anos que alguém segura isso’. Fazemos isso para dar nome a essas pessoas e contar suas histórias com respeito”, relata Decker. “Colocamos as impressões 3D no museu para serem tocadas. Queríamos que as pessoas fizessem a conexão: ‘Nossa, minha coluna é igual a essa’. No scanner, você pode ver os cílios, as pálpebras, o cabelo… isso personaliza a experiência. Não é apenas um sarcófago exótico; era uma pessoa viva”, finaliza.

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Apesar de já terem sido escaneadas antes, informações inéditas sobre os detalhes da vida destes corpos foram descobertos também graças ao avanço nas tecnologias de escaneamento. Agora, os resultados tornaram-se muito mais detalhados e as imagens em alta resolução revelaram dados que não haviam sido descobertos, o que ajudou a criar a imagem de como foi a vida dessas pessoas.

As múmias também foram transformadas nas figuras 3D expostas na exibição da Universidade. Para Diane Perlov, vice-presidente sênior para projetos especiais no California Science Center, essa tecnologia moderna “oferece uma janela poderosa para dentro do mundo antigo e de civilizações passadas que, de outra forma, poderia ter se perdido”.

As tecnologias de visualização 3D da USC utilizadas nas múmias permitem que cirurgiões transformem imagens médicas, como de tomografias ou ressonâncias magnéticas, em reproduções físicas de estruturas do corpo de um paciente.

O processo de escanear cria centenas de imagens de “fatias” específicas do corpo, que são, posteriormente, usadas por especialistas para empilhar as imagens e formar modelos 3D. Os modelos podem ser analisados, medidos e impressos em impressoras 3D de alta resolução. São essas imagens que podem ser usadas por cirurgiões para visualizar melhor a condição médica complexa de um paciente, o que ajuda a direcionar o médico ao melhor tratamento.



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