
Ler Resumo
Atenta aos humores da sociedade e de mãos dadas com os melhores especialistas do Brasil e do mundo, VEJA sempre teve apreço pelas reportagens destinadas a manter corpo e alma sãos, em sucessivas e cuidadosas capas — porque não se vive apenas de política, economia e guerras. Houve especial preocupação com a atividade física dos leitores, mesmo quando, na pré-história da internet, havia apenas a televisão para nos deixar prostrados. A civilização mudou e, com ela, o olhar dos profissionais da revista. Hoje, a percepção de ampla parcela da sociedade de que as crianças e os adolescentes da atual geração praticam pouca ou nenhuma atividade ao ar livre ou em academias não é, definitivamente, uma impressão fortuita. Uma recente pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o sedentarismo infantojuvenil como uma das maiores preocupações de médicos e autoridades sanitárias. Vive-se, de acordo com o relatório da OMS, uma pandemia de sedentarismo, com os baixos índices de atividade corporal atingindo 80% dos jovens globalmente. O estudo mostra que os pais brasileiros não devem relevar o problema: o país tem uma taxa de sedentarismo nessa faixa etária acima da já periclitante marca global, na casa dos 84%. Uma sondagem inédita do instituto AtlasIntel feita com exclusividade para VEJA corrobora esse quadro e aponta suas causas. Cerca de 53%, ou mais da metade dos 600 pais ouvidos no levantamento, admitem que seus filhos fazem menos exercícios físicos do que deveriam.
Razões clássicas para tal má postura, como a dificuldade de acesso aos esportes ou falta de incentivo, hoje são agravadas por outro fator decisivo: o apelo anestesiante das telas. Meninos e meninas preferem ficar horas grudados em videogames e, sobretudo, smartphones a se dedicar a brincadeiras coletivas e à prática informal de modalidades que vão do futebol ao vôlei. Inclusive desejos e necessidades frugais que, há até pouco tempo, estimulavam os humanos a uma simples caminhada, como andar até a escola ou fazer refeições, hoje são substituídos pelos jovens por aplicativos, muito naturalmente. A evolução tecnológica, claro, está aí para revolucionar e facilitar a vida das pessoas, e isso em si é um avanço notável para a sociedade. Mas, como se confirma em reportagem da edição, assinada pela repórter Valéria França, algo precioso se perdeu pelo caminho e deve ser resgatado, em nome da saúde e do bem-estar mental de toda uma geração.
Das condições cardiovasculares precoces à propensão para o diabetes na vida adulta, o rol de consequências da falta de exercícios é concreto e, alertam os médicos, ameaça o futuro da humanidade. Felizmente, muitas escolas e pais já estão acordando para o problema e inventando modos criativos de incentivar crianças e adolescentes a desligarem o celular ou o tablet para se mexerem.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993