Pode haver caso mais investigado do que o de Jeffrey Epstein, o milionário abusador que se suicidou na cadeia? Com tudo o que a imprensa já investigou e com os milhões de arquivos liberados pela justiça americana, ainda existem muitas perguntas sem resposta e mais uma delas foi acrescentada à lista por uma reportagem do New York Times: o anexo na ilha caribenha de Little Saint James, usada para suas orgias com menores, tinha objetos preciosos de lugares santos da religião muçulmana.

O que Epstein, judeu não praticante, pretendia com isso é um mistério. Talvez fosse apenas um capricho de milionário com cabeça de colecionador. O fato é que ele reuniu objetos como azulejos do Azerbaijão, tapetes raros e até um pedaço da grande manta de seda bordada com fios de outro e de prata que recobre a Kaaba, a pedra negra de treze metros de altura no centro do lugar mais venerado pelo Islã, Meca, a cidade de onde Maomé irradiou a nova religião.

A pedra antecede o Islã como lugar de culto. Todos os anos, cerca de dois milhões de muçulmanos fazem a peregrinação a Meca e dão voltas em torno da Kaaba, tentando tocar a cobertura da pedra. Como guardião dos lugares santos, o governo saudita troca anualmente a grande manta negra e pedaços da cobertura usada são vendidos ou leiloados para obras de caridade.

Como Epstein teve acesso a uma preciosidade assim? É possível que através de seu contatos no mundo árabe, incluindo a assessora de um figurão saudita, Aziza Al Ahmadi. Foi através dela que ele conseguiu conhecer o príncipe Mohammed Bin Salman, hoje o homem mais poderoso do reino. Ela também intermediou o acesso a tapeçarias provenientes do interior do santuário da Kaaba.

CÚPULA DOURADA

A construção de contornos islâmicos, em listas brancas e azuis, provocou dúvidas sobre sua finalidade, apresentada como um pavilhão de música, desde que o escândalo estourou. Epstein usou como modelo um antigo banho turco da Síria, um edifício histórico octogonal do século XV. Contratou um artista romeno, Ion Nicola, para coordenar o projeto, encimado por uma cúpula dourada, posteriormente perdida num furacão.

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Quando os detalhes do complexo que ele tinha em Little Saint James vieram à tona, a “mesquita” chegou a ser considerada um centro de práticas oculistas.

É possível que fosse apenas um de seus muitos caprichos. Se ele montou um esquema para ter centenas e centenas de adolescentes e jovens mulheres à disposição para sua satisfação sexual, por que não fazer uma “mesquita” com as iniciais J e E no lugar onde está escrito o nome de Alá?

O mistério da “mesquita” é apenas uma das muitas perguntas sem resposta que ainda cercam Epstein. Uma das maiores dúvidas é como um professor de matemática de colégio construiu uma fortuna de mais de 500 milhões de dólares, administrando investimentos de milionários que poderiam ter os maiores peritos à sua disposição, mas preferiram um obcecado por garotas aliciadas como massagistas para lhe proporcionar três orgasmos por dia.

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MALDIÇÃO PERSISTE

O suicídio de Epstein, em 10 de agosto de 2019, por enforcamento, numa cela onde deveria estar sob vigilância constante, é obviamente o centro das inúmeras teorias conspiratórias que cercam o caso.

O mais famoso associado de Epstein a cair em desgraça é o príncipe Andrew da Inglaterra, hoje ex-príncipe, desprovido de todos os seus títulos e do palacete onde vivia, lançado num opróbio permanente e irrecorrível. O traquejo diplomático e a capacidade de interagir amistosamente com Donald Trump de seu irmão, o rei Charles, evitaram que a visita tal aos Estados Unidos virasse uma oportunidade para cobrar o quanto Andrew foi protegido pela família real.

Mas a maldição de Epstein persiste, inclusive porque, quando achamos que já sabemos tudo sobre sua mente pervertida e a capacidade de atrair pessoas influentes, surgem mais dúvidas intrigantes.

Por que ele ia querer uma falsa mesquita, mas com objetos verdadeiros, na ilha onde concentrava os maiores abusos? Seria apenas mais uma manifestação de poder ou teria objetivos sinistros?



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