
Para que serve um segurança num supermercado? Para “observar, relatar e ser testemunha qualificada”, estabeleceram líderes sindicais da categoria no Reino Unidos. Ou seja, o mesmo trabalho de uma câmera de segurança. A orientação foi praticamente subsequente a um caso que provocou revolta: a demissão de Walker Smith, depois de 17 anos de trabalho para a rede Waitrose, por ter se engalfinhado com um ladrão notório, que saía de uma loja com uma cesta cheia de ovos de chocolate.
O caso de Smith, o tipo de funcionário que se dedica inteiramente ao trabalho, comoveu o país. Ele foi demitido por descumprir a política da empresa segundo a qual os empregados não devem confrontar as pessoas que furtam produtos.
Um episódio semelhante envolveu outro funcionário dedicado, Sean Egan, demitido depois de 29 anos de serviço na rede Morrissons. Egan reagiu ao levar uma cusparada no rosto de um ladrão reincidente que havia tentado mais um furto. Houve até um protesto em frente ao supermercado, mas dificilmente redundará na readmissão do funcionário dispensado tão injustamente.
O primeiro-ministro Keir Starmer prometeu tentar reverter o princípio de que furtos abaixo de 200 libras – ou 1,4 mil reais – não são processados pelo sistema, mas poucos acreditam que redundará em alguma ação efetiva. Furtar está praticamente liberado.
NICHOS FECHADOS
Dificilmente os furtos são praticados por pessoas em estado de necessidade, desesperadas por algo para comer. Ninguém passa fome no Reino Unido. Fora drogados em busca de um dinheiro rápido ou adolescentes testando a própria adrenalina para beber de graça com os amigos, os furtos em geral são encomendados por redes que já têm os esquemas de revenda. Muitas vezes envolvem os produtos mais caros, como champanhe e outras bebidas de alto padrão, hoje isoladas em nichos fechados em muitos pontos de venda.
Grandes redes absorvem os prejuízos, mas pequenos comerciantes sentem o golpe – e não podem sequer fixar cartazes ameaçando os autores de furtos de ser castigados diretamente.
É, obviamente, um desvio grave do pensamento politicamente correto de esquerda segundo o qual todos os que não são “capitalistas” são vítimas da sociedade. Um exemplo disso foi uma coluna recente do jornal New York Times com o título: “Os ricos não jogam de acordo com as regras, por que eu deveria fazer isso?”.
A coluna foi debatida a sério por editores, reunidos sob o tema “Quando o furto em lojas se transforma em protesto político?”. Uma das participantes, Jia Tolentino, disse que já furtou várias vezes na rede Whole Foods. Outro, Hasan Piker, elogiou “crimes descolados, como assaltos a banco, roubo de artefatos de valor inestimável” de museus.
TOPO DA ELITE
“Eu sou a favor de roubar de grandes corporações porque elas roubam de seus trabalhadores”, disse Piker.
Note-se que estamos falando do topo da elite do jornalismo americano, falando em nome do jornal mais importante do mundo. Obviamente, todos se acham o máximo por estar combatendo o “capitalismo” e defendendo os oprimidos.
Teoricamente, claro. Porque nenhum deles se preocupa com a vasta maioria criada no mais elementar princípio moral de “não pegar nada de ninguém” e trabalhar duro para ter suas coisas.
Se quem fica na posição de defender regras tão básicas acaba sendo punido, como aconteceu com os pobres funcionários dos supermercados britânicos, o sistema está completamente distorcido. Guardas que não guardam são o toque final nessa derrocada.