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Forte, grande, amplo, vasto, expressivo, significativo, considerável, substancial, volumoso, abrangente, sólido, consistente, firme, seguro, confiável, duradouro, estável, eficaz, eficiente, capaz, poderoso, competente, resistente, durável, rígido, duro, resiliente, rico, completo, denso, detalhado, aprofundado, elaborado, desenvolvido.
Hoje em dia, isso tudo aí do parágrafo acima vira ROBUSTO. Parece choramingo de jornalista, mas como estamos numa coluna e essa é mesmo minha profissão, decidi que precisava dividir com você minha insatisfação com o empobrecimento progressivo do nosso vocabulário — o que tem relação com o uso das inteligências artificiais generativas na escrita.
(Usei o travessão acima com más intenções, devo dizer, porque a influência do ChatGPT na nossa comunicação se esparrama por muitos outros domínios para além desse sinal gráfico que tanto amo.)
Você talvez compartilhe da minha sensação de que, nos últimos anos, tudo ficou robusto. Dos relatórios corporativos às sessões de musculação, das tretas em mesa de bar às estratégias de treinadores de esportes. Por que, hein?
Uma pesquisa feita na Alemanha em 2025 traz um pouco de luz. Cientistas do Instituto Max Planck analisaram mais de 360 mil vídeos do YouTube e 771 mil episódios de podcast, antes e depois do lançamento do ChatGPT, para rastrear mudanças no uso de determinadas palavras ao longo do tempo. Encontraram aumentos entre 35% e 51% em algumas delas, como “delve” e “meticulous”, consideradas como “palavras GPT” no estudo.
Entre as hipóteses aventadas pelos pesquisadores está a de que o ChatGPT influencia nosso falar porque ocupa hoje um posto de autoridade cultural. É a ele que recorremos (mea culpa) para sanar todo tipo de questão cotidiana, afinal. Humanos tendem a copiar comportamentos de comunicação de quem consideram referência, coisa que herdamos de nossos ancestrais das cavernas, e hoje quem virou nosso farol foram as IAs generativas.
(Um minuto de silêncio, porque eu sei que alguns de vocês ficaram tristes demais com o parágrafo anterior. Eu fiquei também, sintam-se abraçados.)
Mas por que as IAs gostam tanto da palavra “robusto”?
Inquieto com a onipresença da palavra, fui pesquisar a respeito dela. Não de maneira formal como fizeram os pesquisadores do Max Planck, mas também sem trazer certezas escritas a ferro e fogo. Apresento aqui um ponto de vista sobre o assunto, não uma tese, vale avisar de antemão.
Não sei se você reparou, mas a palavra “robust” não aparecia na pesquisa que mencionei acima, a da Alemanha. E uma reportagem da BBC publicada em janeiro de 2014 ajuda a gente a entender o motivo: “robusto” aparecia entre os termos que ninguém mais aguentava ouvir já naquela época. Foi uma das mais repetidas em 2013.
E o que aconteceu — não desista de continuar aqui comigo — de lá para cá? Os anos 2010 foram marcados por grandes avanços de IA, em aprendizado profundo, visão computacional, processamento de linguagem natural… E, mais tarde, IA generativa. O fim da década foi marcado por avanços que mais tarde resultariam no ChatGPT e seus congêneres.
Enquanto eles estavam lá sendo robustos, essa palavra aparecia menos no nosso dia a dia. Para ser extremamente franco, devo dizer que a última vez que eu tinha ouvido tinha sido no desenho dos Smurfs, nos anos 1980, vendo o programa da Xuxa. Sim, um dos duendezinhos azuis se chamava Robusto.
Quando o segmento de IA explodiu, o jeito de falar e escrever de todo mundo começou a ser diretamente impactado por essas máquinas, e a robustez antes restrita ao mundo anglófono chegou aqui na minha, na sua, na nossa comunicação.
Quer dizer, o ChatGPT foi o Cavalo de Troia da palavra “robusto”.
Aí a palavra sofreu um processo de “buzzwordification”: virou moda no ambiente corporativo brasileiro, num processo semelhante a “assertivo”, que talvez seja a maior praga da vocabulário contemporâneo (as pessoas usam errado achando que estão brilhando, procure saber).
Detalhe: como as IAs são treinadas com material produzido pelas pessoas, quanto mais o “robusto” aparece na nossa comunicação, mais se reproduz nas respostas das ferramentas.
Nem só de IA vive a robustez
Apesar do meu comentário sobre a infância 80’s, cabe apontar aqui que a palavra robusto existe no português há séculos. Deriva do latim “robustus”, que por sua vez vem de “robur”, nome usado para o carvalho, árvore famosa pela dureza e resistência de sua madeira. Por isso a palavra carrega esse sentido de forte, vigoroso, resistente.
E, claro, tudo bem as pessoas usarem a palavra que bem entenderem, sobretudo por se tratar de uma que existe desde sempre no nosso dicionário. Até porque ela é aplicada de maneira correta.
A questão aqui é outra: a influência quase imperceptível de uma tecnologia tão nova, cujo potencial (para o mal ou para o bem) ainda não foi plenamente analisado. Especialmente o fato de abrirmos mão de tantos outros adjetivos em prol deste único.
Cabe mencionar o ponto de vista de dois professores da FFLCH, Henrique Braga e Marcelo Módolo, que num texto saboroso sobre a estrela desta nossa conversa, propõem uma característica sedutora do “robusto”. Um grande apelo, na visão deles, é o fato de que é uma palavra gostosa de pronunciar: a sílaba tônica com a vogal “u” produz uma sensação de boca cheia e de força encorpada. Pronuncie aí na sua casa, que vai ficar fácil entender.
Em outros idiomas, robusto comunica a mesma ideia de força e resistência, razão que explica sua adesão por desenvolvedores. Muitos profissionais envolvidos na criação das IAs usam há tempo esse adjetivo para se referir aos modelos de linguagem. No caso, para comunicar a capacidade que um sistema tem de atravessar instabilidades, por exemplo.
Se hoje usamos tanto essa palavra com o ChatGPT, é porque ele aprendeu com profissionais gringos do segmento tech — afinal, quando uma indústria ganha papel tão central na sociedade, seus jargões podem também se espalhar por outros segmentos.
Quer dizer, além da ação do ChatGPT, outro fator crítico para a onipresença de “robusto” em Angra dos Reis e Ipanema, Iracema, Itamaracá é a influência do inglês técnico. No idioma de origem da maior parte das inovações em IA, o termo já era onipresente. Dada a velocidade com que a tecnologia é importada, a tradução muitas vezes ocorre de forma direta, sem a busca por sinônimos que poderiam ser mais naturais. Como os que usei para começar este texto.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, professor de pós-graduação e palestrante