Uma cobertura triplex anunciada por cerca de R$ 54 milhões em Itapema, no litoral norte de Santa Catarina, ilustra uma mudança mais ampla no mercado imobiliário brasileiro de alto padrão. A migração do conceito de luxo para modelos que replicam estruturas de resort dentro da própria residência, e elevam preços a patamares inéditos fora dos grandes centros tradicionais.
O imóvel, com quase mil metros quadrados, seis suítes e área de lazer privativa com piscina, sauna e spa, integra o empreendimento Edify One, projeto à beira-mar com Valor Geral de Vendas (VGV) estimado em R$ 650 milhões.
Entre os sócios do terreno está a NR Sports, ligada ao entorno do jogador Neymar.
Litoral catarinense vira polo de alto luxo
Nos últimos anos, cidades como Itapema e a vizinha Balneário Camboriú passaram a concentrar alguns dos imóveis mais caros do país, impulsionadas por uma combinação de fatores: restrição de terrenos frente-mar, verticalização intensa e entrada de compradores de alta renda, muitos vindos de outros estados.
Dados de consultorias do setor e reportagens recentes de veículos como Valor Econômico e Estadão apontam que o metro quadrado nessas regiões já rivaliza com bairros nobres de São Paulo e Rio de Janeiro, especialmente em lançamentos com padrão construtivo elevado.
A valorização é reforçada por um perfil de comprador que busca segunda residência ou diversificação patrimonial em ativos imobiliários considerados mais seguros em cenários de volatilidade econômica.
Do condomínio ao “resort privado”
O principal diferencial desses novos empreendimentos está na mudança de conceito. Em vez de áreas comuns compartilhadas — como piscinas, academias e spas —, incorporadoras passaram a oferecer essas estruturas dentro das próprias unidades.
No caso da cobertura em Itapema, a área de lazer ocupa um dos pavimentos e inclui piscina com cobertura retrátil, sauna e espaço de convivência voltado para o mar. A lógica é reduzir ao mínimo o compartilhamento e ampliar a sensação de exclusividade.
Esse movimento acompanha uma tendência internacional observada após a pandemia, quando a demanda por privacidade e autonomia dentro da residência ganhou força, especialmente entre compradores de alto patrimônio.
Verticalização extrema e impacto urbano
O avanço do superluxo no litoral catarinense também levanta questionamentos sobre o modelo de desenvolvimento urbano. Cidades como Balneário Camboriú já convivem com arranha-céus entre os mais altos da América Latina, o que gera debates sobre sombreamento da orla, pressão sobre infraestrutura e mudanças no perfil urbano.
Em Itapema, o processo ainda está em expansão, mas segue a mesma lógica: torres cada vez mais altas, unidades maiores e preços crescentes, voltados a um público restrito.
Especialistas ouvidos por diferentes veículos apontam que esse tipo de crescimento tende a aumentar a desigualdade no acesso à moradia local, além de pressionar serviços urbanos em cidades que nem sempre acompanham o ritmo dos lançamentos.
Investimento ou ativo de prestígio
Embora incorporadoras frequentemente destaquem o potencial de valorização desses imóveis, analistas do setor avaliam que o componente simbólico tem peso crescente nesse segmento.
Mais do que retorno financeiro, a compra de unidades desse porte funciona como marcador de status e diversificação de patrimônio em ativos tangíveis. A liquidez, no entanto, pode ser mais limitada, dada a base reduzida de compradores capazes de absorver imóveis nessa faixa de preço.
Um mercado em transformação
Com entrega prevista para 2028, o Edify One se insere em um ciclo de expansão do alto padrão no Brasil que desloca parte do protagonismo das capitais para destinos turísticos premium.
O caso da cobertura em Itapema sintetiza essa mudança: imóveis cada vez maiores, mais caros e autossuficientes, voltados a um público que busca não apenas localização privilegiada, mas controle total sobre espaço, serviços e experiência — mesmo que isso signifique transformar o apartamento em um enclave privado de luxo à beira-mar.