Sorridente e solar, a psicóloga Edith Eva Eger desafiava as expectativas dos jornalistas para quem concedia entrevistas – entre eles, esta que vos fala. Entrevistei Edith em duas ocasiões: em 2019, quando ela tinha 91 anos de idade, por causa do lançamento de seu livro de memórias A Bailarina de Auschwitz no Brasil; depois, em 2021, quando chegou por aqui A Liberdade É uma Escolha, outro título de sua autoria – ambos editados pela Sextante. Como sugere o título da autobiografia, a autora foi uma das poucas sobreviventes do tenebroso campo de extermínio nazista na Polônia: mais letal palco do Holocausto, Auschwitz foi onde morreram ao menos 1,3 milhão de pessoas. Os traumas do período eram incuráveis – mas ela encontrou uma forma de conviver com eles, e de desfrutar de uma longa trajetória repleta de realizações. 

No início desta semana, na segunda, 27, Edith morreu, aos 98 anos. “Ela partiu com toda a graça com que viveu — como um anjo voltando para casa”, diz o comunicado da família publicado nas redes sociais. “Todos nós fomos profundamente tocados por sua vida e manteremos sua memória viva por meio de nossas ações.” As lições deixadas por Edith, de fato, são valiosas e belas. 

Aos 16 anos, treinando para ser uma bailarina e ginasta profissional, ela foi presa junto com a família pelos nazistas, que mataram seus pais. Sobreviveu ao lado da irmã mais velha, Magda, com quem ficou em Auschwitz entre 1944 e 1945. Ao fim da II Guerra Mundial, recomeçou uma nova família: casou-se, teve filhos, se mudou para os Estados Unidos e, aos 50 anos, voltou a estudar, formando-se em psicologia. Aprendeu a lidar com os próprios traumas ao ajudar seus pacientes. Foi então, já nonagenária, que ela, enfim, se sentiu pronta para contar o que havia vivido nos livros que a tornaram conhecida por leitores ao redor do mundo. Para quem teve boa parte da juventude roubada, Edith entendeu que nunca era tarde para novos começos. “É importante que meus bisnetos saibam que seus ancestrais nunca desistiram”, disse ela a VEJA. 

Viver, desfrutar do presente e amar: foi assim que Edith encontrou um meio de vencer o ódio dos nazistas, durante e depois do campo. Nascida na Eslováquia ao tempo em que esta pertencia ao império austro-­húngaro e desde cedo convivendo com o antissemitismo, Edith aprendeu com a mãe a fazer da mente um refúgio contra as ameaças. Enquanto estava em Auschwitz, mantinha fixo o pensamento de que não era ela a prisioneira, mas sim os soldados cegos por uma ideologia detestável. Décadas depois, perdoou seus algozes. “Abri mão do ódio para não ser prisioneira do passado.” Um exemplo a ser seguido. 



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