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Entre um mergulho e outro, visitar ruínas da civilização maia é um dos esportes favoritos de quem vai a Cancún, no México. Mas tem pedágio: é preciso cavar espaço em meio à multidão que, especialmente na alta temporada, se acotovela em frente às pirâmides para obter o melhor ângulo. O que menos gente sabe é que, não muito longe dali, banhada pelo mesmo mar caribenho, na América Central, fica Belize, que se gaba de concentrar o mais bem preservado conjunto de resquícios da sofisticada sociedade pré-colombiana que começou a brotar por lá há 3 000 anos e desenvolveu notável conhecimento de astronomia, agricultura e matemática. São mais de 700 parques arqueológicos cercados de natureza exuberante, uma abundância que oferece ao visitante um passeio por antigos templos de adoração e locais de celebração, com direito a, de repente, esbarrar com um exemplar do famoso calendário maia cravado em pedra — aquele que termina em 2012, ano que supostamente seria o do fim do mundo.
Enaltecido pelos belizenses como a “joia escondida do Caribe”, o país de 400 000 habitantes e 65% do território de matas preservadas anda às voltas com um dilema moderno que ali custou a chegar, mas hoje mobiliza autoridades: para a pequena nação que cultiva banana e cana-de-açúcar e faz algum dinheiro com a pesca, a roda do turismo precisa girar com maior vigor. E é o que estão tentando agora, ao incentivar a construção de resorts, renovar o asfalto de velhas estradas (inclusive a que leva à capital, Belmopã) e expandir o acanhado aeroporto, onde os voos do Canadá e dos Estados Unidos, de onde aflui a maioria dos forasteiros, vêm aumentando — do Brasil, o périplo aéreo é com escala no Panamá. Aos poucos, há avanços: a turma que se desviou de destinos mais comuns na região, como Bahamas e até a vizinha Guatemala, saltou 21% em um ano. “O grande desafio aqui é crescer sem pôr em risco a riqueza que temos”, disse a VEJA Nicole Solano, à frente da pasta do Turismo.

O dia a dia do turista é a bordo de pequenas embarcações, indo de ilha em ilha, de um total de 150. Um dos sítios de maior visitação fica em Lamanai, que espanta pelo tanto de tempo em que ali viveram e floresceram os maias, de 1500 a.C. a 1500 d.C., prova de sua resiliência. Com a vinda dos espanhóis, no século XV, outros povos da chamada Mesoamérica, como incas e astecas, foram varridos, mas os maias, sobretudo os de Belize, duraram uns 100 anos mais, por sua localização distante do litoral e suas cidades estrategicamente interligadas, formando um vultoso exército. Curioso é que ainda se avistam em certas pedras marcas que, acredita-se, foram deixadas pela pólvora dos colonizadores, segundo informa o guia.
Em outro impressionante sítio, despontam os templos da Máscara e do Jaguar, este ornado com o desenho de imensas máscaras representando faces felinas ligadas ao sobrenatural. “Por onde a gente anda, tropeça em uma pedra histórica”, dizia, em plena exploração, o arquiteto americano John Achiles. Tamanha é a riqueza que emerge de onde menos se espera que, não raro, ouvem-se casos de gente que descobriu que a própria casa estava deitada sobre restos maias. “Me sinto protegido por sacerdotes passados”, brinca Mario Gardens, que mora com a família em meio a um desses tesouros arqueológicos “particulares”. A leste do arquipélago, outra surpresa: o balneário de San Pedro é ponto de partida para um sobrevoo de monomotor para observar o deslumbrante Great Blue Hole, como o francês Jacques-Yves Cousteau chamou o gigantesco buraco azul que avistou em 1971. Sua expedição mapeou os 125 metros de caverna calcária subaquática de período anterior à elevação do nível do mar, ainda na Era do Gelo. Os turistas naturalmente se maravilham com o gigantesco pontilhado de corais, patrimônio mundial da Unesco.

Ex-colônia britânica, cuja independência veio apenas em 1981 (daí o inglês ser língua oficial), Belize deu-se conta de que seu rico passado pode impulsionar um roteiro original. Assim, vilarejos habitados pela população que descende dos maias começaram a manter as casas de portas abertas para os visitantes, que apreciam saborosas tortilhas de milho preparadas pelos locais. “Dá orgulho manter nossa cultura viva”, diz Melissa Canto, moradora da vila de San Antonio. Trilhando o caminho em direção à fronteira com a Guatemala, avista-se outra surpresa: a pirâmide El Castillo encanta com seus 40 metros de altura. “Talvez só os egípcios condensem tanta história de uma sociedade antiga em um único território”, afirma Ruben Arevalo, estudioso do setor de turismo. Em meio aos esforços para colocar Belize no mapa do turismo, ecoa pela nação caribenha a preocupação de não se afastar de suas raízes, algo que, bem lá atrás, já mobilizava os próprios maias. “Se não cuidamos da natureza, ela nos engole e tudo vira pedra”, acreditavam. Como se vê, até nisso a civilização que por lá prosperou estava à frente de seu tempo.
Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989