
O regime cubano anunciou na quinta-feira 2 a libertação antecipada de mais de 2 mil presos políticos como um “gesto humanitário” durante a Semana Santa, marcando a segunda leva em menos de um mês, em meio à crescente pressão do governo Donald Trump sobre a ilha e o bloqueio energético dos Estados Unidos.
O indulto aprovado pelas autoridades de Cuba ocorre em meio a conversas com o Vaticano. As autoridades cubanas não forneceram uma lista dos 2.010 beneficiários nem detalhes sobre os motivos de sua detenção, embora tenham afirmado que se trata de presos que cumpriram uma parte significativa de suas penas e demonstraram bom comportamento. O comunicado acrescentou que o estado de saúde dos perdoados foi levado em consideração, priorizando jovens, mulheres, adultos com mais de 60 anos, além de estrangeiros e cidadãos cubanos residentes no exterior.
A medida excluiu reincidentes e quem cumpre pena por crimes graves, como agressão sexual, abuso infantil, assassinato, homicídio, tráfico de drogas, furto, roubo à mão armada, corrupção de menores. Também ficaram de fora pessoas acusadas de “crimes contra a autoridade”, categoria geralmente aplicada a manifestantes e opositores, deixando de fora pessoas sancionadas por motivos meramente políticos. De acordo com a declaração oficial, este é o quinto indulto concedido pelo regime cubano desde 2011, beneficiando mais de 11 mil pessoas no total.
A Igreja Católica tem servido por décadas como canal de mediação entre Cuba e os Estados Unidos e desempenhou um papel fundamental no restabelecimento das relações diplomáticas em 2015, durante o segundo mandato de Barack Obama.
Pressão americana
O anúncio ocorreu pouco depois de Washington ter flexibilizado o embargo de petróleo contra a ilha, em vigor há quase três meses. O governo americano permitiu a entrada de um petroleiro russo no país caribenho, que está mergulhado em uma grave crise energética.
Trump reiterou sua intenção de promover uma mudança de regime em Cuba, que ele considera uma “ameaça excepcional” para a região devido aos seus laços com a Rússia, a China e o Irã. Nos últimos meses, o presidente dos Estados Unidos endureceu sua retórica em relação a Havana e chegou a sugerir a possibilidade de “tomar o controle” da ilha, governada pelo Partido Comunista.
Em 12 de março, as autoridades anunciaram a libertação antecipada de 51 prisioneiros como um gesto de “boa vontade” para com o Vaticano, ator fundamental nas históricas mediações entre Havana e Washington. No dia seguinte, o governo de Miguel Díaz-Canel confirmou que Cuba tinha aberto diálogo com os americanos, como Trump já havia indicado desde meados de janeiro.
“Não parece irracional pensar que isso seja um sinal de que parte do diálogo entre os dois governos (Washington e Havana) está progredindo. Talvez lentamente, mas progredindo mesmo assim”, observou Michael Bustamante, historiador da Universidade de Miami, em entrevista à agência de notícias AFP.