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Um dos mais celebrados autores da atualidade, o cubano Leonardo Padura, 70 anos, é mestre em mesclar fatos históricos com ficção. O autor de O Homem que Amava os Cachorros conversou com VEJA na casa onde nasceu e mora até hoje, em Mantilla, bairro popular de Havana.

Já pensou em deixar o país? Poderia ter ido viver fora há muitos anos, mas continuo aqui porque tenho um forte sentimento de pertencimento a esta realidade. Meu trabalho se nutre dela. Estamos no andar de cima da casa em que eu nasci. Embaixo está minha mãe, que fará 98 anos. No quintal estão enterrados todos os cães que tive. Aqui é meu lugar.

Em Cuba falta energia, falta água, falta comida. Também falta esperança? Pessoalmente, alterno momentos de mais e menos pessimismo. Não sou economista nem analista político, sou um observador da realidade e um autor que escreve sobre ela. E acho que muita gente em Cuba perdeu, sim, a esperança.

Qual o papel de um escritor ao observar a realidade cubana? Cada um deve fazer o exercício artístico ou estético que lhe convém e agrada. Mas, para mim, não faz sentido uma arte que engrandeça o poder. O artista tem que ser um inconformado e mostrar os elementos obscuros de uma sociedade. É o que eu faço.

Por que seus livros não têm ampla circulação em seu país? As editoras são do Estado, e uma arte que seja inconveniente para ele não será divulgada. Meus últimos quatro romances não foram publicados aqui. Não apareço na televisão nem nos jornais, não me entrevistam. É o preço que pago. Mas acho que tenho que continuar minha obra.

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Incomoda a ameaça de Donald Trump de tomar Cuba? A linguagem dele é de conquistador do século XVI. “Vamos tomar Cuba”, como se fosse Francisco Pizarro ou Hernán Cortés. Todas as possibilidades estão na mesa, inclusive uma possível intervenção militar. Espero que muitas coisas mudem, não porque o governo americano está pressionando, mas porque os cubanos querem mudanças para viver melhor.

Como o senhor vem lidando com os cortes de energia? A situação era complicada no interior, mas Havana tinha um certo tratamento preferencial. Isso acabou. As autoridades sabiam que nossa rede elétrica é obsoleta e deviam ter pensado em alternativas. Olhe o sol da primavera lá fora. Ele poderia ter sido muito mais aproveitado.

O que Cuba representa hoje? Há muitas visões de Cuba — o país agredido, o que viola direitos humanos, o que fracassou na economia, o que representa a dignidade frente ao império norte-americano. Cada um, eu acho, tem sua própria Cuba.

Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989



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